Geral31 de out.
IA revoluciona busca por imóveis: 79% mais conversas, mas menos pedidos de corretor
A forma como os brasileiros buscam imóveis está passando por uma transformação significativa, impulsionada pela inteligência artificial (IA). Dados da Morada.ai, plataforma de IA para o setor imobiliário, revelam um aumento de 79% no volume de conversas entre interessados em imóveis e incorporadoras nos últimos 12 meses. No entanto, apenas 1,3% dessas interações iniciais resultam em um pedido de atendimento por um corretor humano. A análise abrange cerca de 2,77 milhões de conversas e 36 milhões de mensagens trocadas com consumidores em canais digitais como WhatsApp e chat, envolvendo aproximadamente 300 incorporadoras e loteadoras.As conversas mediadas por IA oferecem um panorama sobre as prioridades dos consumidores na jornada de compra. No segmento Minha Casa, Minha Vida (MCMV), 19,5% das conversas incluem perguntas sobre financiamento. Esse percentual diminui para 8,6% no médio e alto padrão e 8,3% no altíssimo padrão. Em contrapartida, o preço do imóvel é o foco principal em 54,4% das conversas sobre médio e alto padrão, enquanto no segmento econômico esse tema aparece em 33,7%. A localização se mantém como critério crucial, presente em 56,4% a 65,9% das buscas, independentemente do padrão.O que o consumidor procura: financiamento ou preço?A inteligência artificial tem mapeado as prioridades dos compradores. Em conversas sobre o programa Minha Casa, Minha Vida, o financiamento é um tema recorrente, com 19,5% das interações focadas nesse aspecto. Já para imóveis de médio e alto padrão, o preço do imóvel domina as discussões, aparecendo em mais da metade das conversas (54,4%). A localização, um fator tradicionalmente importante, continua relevante em todos os segmentos, variando entre 56,4% e 65,9% das pesquisas.Dentro das interações que abordam financiamento ou condições de crédito, que representam cerca de 10% do total, quase metade (49%) menciona o preço do imóvel. Simulações e valores de entrada também são temas comuns, respondendo por 32% e 21% dessas conversas, respectivamente. Referências diretas à Selic ou taxas de juros são raras, aparecendo em menos de 1% das interações, o que sugere que o consumidor foca mais nas condições práticas do que nos indicadores macroeconômicos.O papel do corretor na era da IAO segmento Minha Casa, Minha Vida, que representou 51% das unidades residenciais novas vendidas no segundo trimestre de 2026, segundo a CBIC, é onde a atuação do corretor é vista como ainda mais essencial. Profissionais como Renée Garófalo Silveira, CEO da Open, destacam que muitos compradores do mercado econômico sequer consideram a compra de um imóvel por desconhecerem sua capacidade de pagamento. Nesses casos, o corretor atua como um orientador, ajudando o cliente a descobrir seu potencial de compra e a encontrar o produto ideal.A complexidade da venda de imóveis econômicos, que envolve a intermediação de crédito imobiliário, exige um papel consultivo do corretor. Ele não apenas apresenta o imóvel, mas também auxilia no enquadramento em programas habitacionais e serve como elo entre consumidores, construtoras e instituições financeiras. A preocupação com a qualidade da informação prestada é tamanha que algumas incorporadoras mantêm equipes internas de vendas para garantir essa conferência.Formação e qualificação: um desafio constanteA formação básica para corretores de imóveis no Brasil inclui o curso de Técnico em Transações Imobiliárias (TTI), com carga horária mínima de 800 horas, que abrange legislação, matemática financeira e marketing. No entanto, especialistas como Renée Silveira consideram o TTI muito básico e defendem a necessidade de atualização constante, com inclusão de temas como empreendedorismo, ferramentas digitais e estratégias de comunicação. A discussão sobre aperfeiçoamento da formação não é nova, com tentativas anteriores de instituir exames de proficiência.Ronal Balena, fundador da MySide, aponta que a estrutura tradicional do mercado imobiliário, onde corretores frequentemente têm vínculos com vendedores, pode gerar um desequilíbrio, com o comprador, que geralmente compra poucas vezes na vida, sendo o "pato da mesa". O Código Civil, em seu artigo 723, determina que o corretor atue com diligência e preste todas as informações sobre riscos e condições do negócio. Contudo, a baixa proficiência em letramento financeiro dos brasileiros, evidenciada por pesquisa do Banco Central e FGC, onde apenas 14,3% acertaram um cálculo simples de juros, indica que o acesso à informação não garante a compreensão dos conceitos financeiros.IA e o futuro da intermediação imobiliáriaA inteligência artificial está assumindo tarefas de atendimento, triagem e organização de informações, liberando os corretores para focarem em aspectos mais complexos da negociação. Ferramentas de IA já auxiliam na resposta a interessados e qualificação de perfis. Luís Veloso, cofundador da Morada.ai, ressalta que o desafio reside na adaptação dos corretores ao uso dessas ferramentas e na formulação das perguntas corretas para extrair o máximo de informação da IA. A decisão de compra, contudo, permanece intrinsecamente ligada à interação humana, pois envolve aspectos emocionais, expectativas familiares e inseguranças.A tecnologia, ao resolver grande parte das necessidades iniciais de busca e comparação, permite que o profissional atue mais como um guia. No entanto, a natureza emocional da compra de um imóvel garante que o relacionamento humano direto com um profissional continue sendo fundamental nas etapas decisivas da negociação.