Inmetro desenvolve método químico para identificar espécies de madeira

Destaques
- •Pesquisadores do Inmetro criaram um método baseado em espectrometria de massas para identificar espécies de madeira por sua assinatura química.
- •A técnica promete agilizar a fiscalização do comércio ilegal de madeira, um desafio devido à semelhança entre espécies e à perda de características visíveis após o processamento.
- •O estudo, publicado na ACS Omega, alcançou 95% de acerto em validação cruzada e 100% em teste cego, com potencial para ser adaptado para uso em postos de fiscalização.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), em colaboração com outras instituições brasileiras, desenvolveram um método inovador para identificar espécies de madeira com base em suas composições químicas. A técnica, publicada em março de 2026 na revista científica ACS Omega, utiliza espectrometria de massas para detectar a "assinatura química" única de cada espécie, auxiliando na fiscalização do comércio ilegal de madeira.
O Brasil, país com a maior biodiversidade do planeta, abriga espécies de árvores de grande valor econômico e ecológico, como o pau-brasil e o mogno. No entanto, a exploração intensa e a perda de habitat colocam muitas dessas espécies em risco de extinção. Um dos grandes desafios para a fiscalização é a dificuldade em identificar a espécie transportada quando a madeira já foi processada, abrindo espaço para fraudes e transporte irregular.
O Desafio da Identificação de Madeira
A identificação de espécies de madeira é crucial para combater o comércio ilegal. No entanto, toras ou tábuas sem folhas, flores ou frutos perdem características visíveis que auxiliam os botânicos. Espécies diferentes podem parecer muito semelhantes, e o processamento da madeira pode dificultar a observação de características anatômicas importantes para a identificação.
Operações recentes no Brasil têm revelado divergências entre as espécies e volumes declarados e a madeira efetivamente transportada, além de documentação ambiental falsa. Em agosto de 2025, uma operação da Polícia Rodoviária Federal apreendeu 2.043 m³ de madeira com irregularidades. Em outubro de 2026, no Maranhão, uma carga de aproximadamente 100 m³ continha uma espécie ameaçada de extinção.
A Solução Química do Inmetro
Diante desse cenário, o Laboratório de Análise Orgânica do Inmetro, com parceiros como o Serviço Florestal Brasileiro, desenvolveu uma abordagem baseada na composição química da madeira. A ideia é que, assim como uma impressão digital distingue pessoas, diferentes espécies de árvores possuem conjuntos característicos de substâncias químicas.
A técnica de espectrometria de massas, já utilizada em setores como o farmacêutico e de alimentos, foi aplicada para ler essa "assinatura química". O estudo analisou madeiras de mogno, cedro, andiroba e jatobá, utilizando 60 amostras de cerne provenientes da região amazônica. O modelo alcançou aproximadamente 95% de acerto na validação cruzada e 100% de acerto em um teste cego com 12 amostras.
Próximos Passos e Impacto na Fiscalização
Embora o trabalho seja uma prova de conceito, ele abre caminho para o desenvolvimento de equipamentos mais compactos e operacionais, que poderiam ser utilizados em postos de fiscalização como portos, aeroportos ou laboratórios móveis. O custo estimado é cerca de 20% do valor de equipamentos mais amplamente utilizados atualmente.
Essa tecnologia pode aproximar a análise do local onde a decisão precisa ser tomada, agilizando o combate ao comércio ilegal de madeira, que frequentemente está associado a outras atividades criminosas na Amazônia. A ciência, ao produzir evidências, fortalece as políticas públicas e amplia a capacidade do país de proteger seu patrimônio natural, reforçando a soberania nacional.
Matérias originais
- Pesquisa usa assinatura química das árvores para reforçar combate a madeira ilegal · super.abril.com.br



