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Embrapa e Sabesp transformam lodo de água em fertilizante sustentável

31 de outubro de 2026
Embrapa e Sabesp transformam lodo de água em fertilizante sustentável

Destaques

  • •Nova tecnologia da Embrapa e Sabesp converte lodo de estações de tratamento de água em fertilizante de liberação lenta.
  • •Inovação neutraliza alumínio tóxico e incorpora nutrientes, agregando valor a um passivo ambiental que custa R$ 300 por tonelada para a Sabesp.
  • •Próximos passos incluem projeto-piloto industrial e validação agronômica para registro do produto no Ministério da Agricultura.

Uma nova rota nanotecnológica desenvolvida pela Embrapa em parceria com a Sabesp promete transformar o lodo de Estações de Tratamento de Água (ETAs) em fertilizante de liberação lenta. A inovação utiliza um processo hidrotérmico para neutralizar o alumínio tóxico presente no resíduo e incorporar nutrientes essenciais como nitrogênio e potássio, convertendo um passivo ambiental em um insumo agrícola de valor agregado.

O aproveitamento do lodo de ETA é historicamente limitado por sua composição variável, baixo teor de matéria orgânica e, principalmente, pela alta concentração de sais de alumínio, oriundos dos coagulantes usados no tratamento da água. O alumínio livre pode ser tóxico às plantas, prejudicando o desenvolvimento de raízes e a absorção de nutrientes. A tecnologia desenvolvida pela Embrapa Instrumentação, com apoio de outras unidades da Embrapa e da FAPESP, busca superar essas barreiras, produzindo um fertilizante em grânulos que também pode atuar como veículo para microrganismos benéficos.

Resíduo tóxico vira insumo agrícola

Diferentemente do lodo de esgoto, o lodo de ETA possui baixa carga orgânica e alta concentração de sais de alumínio. Segundo Caue Ribeiro, coordenador do projeto na Embrapa Instrumentação, a tecnologia transforma esse resíduo em matéria-prima para insumos agrícolas, agregando valor a um material que tradicionalmente representa custos de manejo e descarte. O fertilizante produzido, na forma de grânulos, incorpora nitrogênio e potássio (NK) em sua matriz, com alta resistência física e biodegradação gradual no solo.

O processo hidrotérmico, realizado em autoclave, reorganiza as partículas do resíduo, formando cristais de sodalita, um tipo de zeólita. Esse material retém o alumínio em suas estruturas, reduzindo sua liberação no ambiente e tornando o insumo adequado para aplicação em lavouras. A sodalita também pode ser utilizada na recuperação de potássio de efluentes da suinocultura.

Impacto e desafios para a Sabesp

A Sabesp gera cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado anualmente em suas 208 ETAs. O transporte e a destinação desse material custam aproximadamente R$ 300 por tonelada, com um desafio logístico e financeiro significativo. A companhia busca alternativas sustentáveis para o aproveitamento do lodo, reduzindo sua destinação a aterros sanitários.

Marco Barros, diretor corporativo da Sabesp, afirma que a pesquisa desenvolvida na ETA Vargem Grande Paulista segue nessa direção, com a expectativa de consolidar uma alternativa aplicável a outras estações com características semelhantes. A expectativa é validar a tecnologia em campo e obter o registro do produto no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Avaliação agronômica e potencial biológico

Experimentos em casa de vegetação com azevém e capim-piatã, conduzidos pela Embrapa Pecuária Sudeste, mostraram aumento na eficiência agronômica e na absorção de nutrientes com o uso da sodalita granulada. Os testes avaliaram a liberação gradual de nitrogênio e potássio, reduzindo perdas. A zeólita demonstrou reter nitrogênio, evitar emissão de gases e manter nutrientes disponíveis para as raízes.

Além da nutrição mineral, a formulação foi avaliada como veículo para microrganismos. O grânulo mostrou compatibilidade e viabilidade para a bactéria Bacillus megaterium, que favorece o crescimento vegetal e melhora o aproveitamento de nutrientes, atuando como veículo protetor para armazenamento e aplicação de inoculantes biológicos. O estudo, que durou 4 anos, envolveu mais de R$ 2,7 milhões e uma equipe multidisciplinar.

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