IA em propaganda eleitoral nos EUA: crescem gastos e preocupação com 'slopaganda'

Destaques
- •O uso de inteligência artificial em anúncios políticos nos EUA disparou em 2024, com gastos ultrapassando US$ 137 milhões.
- •A prática, apelidada de 'slopaganda', é majoritariamente utilizada por candidatos republicanos e levanta preocupações sobre desinformação.
- •Apesar do aumento, o impacto real na decisão do eleitor ainda é debatido, com pesquisas sugerindo maior eficácia em mobilização e arrecadação.
A aproximação das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, tem visto um aumento expressivo no uso de inteligência artificial (IA) na propaganda eleitoral. Pesquisadores alertam para o risco de disseminação de informações falsas através de anúncios políticos gerados por IA, prática apelidada de "slopaganda", que combina propaganda política com conteúdos de baixa qualidade criados por inteligência artificial.
Tanto republicanos quanto democratas têm utilizado a tecnologia, mas candidatos e grupos ligados ao Partido Republicano concentram a maior parte dos investimentos. Um exemplo citado é um anúncio produzido por uma organização ligada ao senador republicano Ted Cruz, que mostra o candidato democrata Abdul El-Sayed segurando cartas de um jogo com frases como "Morte aos EUA" e "Celebre o 11 de Setembro". O vídeo, que também apresenta uma imagem de família gerada por IA, informa que foi criado "total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial", uma prática rara entre os anúncios desse tipo.
Poucos anúncios revelam o uso de IA
A maioria dos anúncios políticos que utilizam IA não informa o eleitor sobre a origem do conteúdo, dificultando a identificação de imagens e vídeos gerados pela tecnologia e a avaliação de sua veracidade. Segundo o Wesleyan Media Project, que monitora gastos com propaganda eleitoral, foram identificados 220 anúncios produzidos com IA até o momento do levantamento, mas o número real é estimado como muito maior.
Desses anúncios identificados, quase 81% foram financiados por candidatos ou grupos republicanos, enquanto os democratas foram responsáveis por 12%. Os gastos totais com esse tipo de propaganda ultrapassaram US$ 137 milhões (R$ 753,4 milhões) em 2024, um salto significativo em relação aos apenas US$ 50 mil (R$ 274 mil) gastos em 2024.
Críticas e regras em alguns estados
A falta de transparência e o potencial para desinformação geram críticas. O senador democrata Jon Ossoff classificou o crescimento do uso de IA na propaganda eleitoral como "profundamente preocupante" e um "caminho perigoso rumo à destruição da verdade no debate político". Ele pediu a retirada de circulação de um anúncio financiado pelo Senate Leadership Fund, organização que apoia candidatos republicanos, que mostrava o senador em um salão de beleza, sugerindo que ele estaria "maquiando" seu relatório de prestação de contas.
A rejeição ao uso de IA em campanhas eleitorais também se reflete em pesquisas de opinião, com 73% dos entrevistados considerando o uso "inaceitável", segundo levantamento para a Fundação AAPC. Embora não haja uma regra federal nos EUA que obrigue a divulgação do uso de IA em anúncios, alguns estados já implementaram regras para limitar a tecnologia nesse tipo de publicidade.
Impacto real da 'slopaganda'
Pesquisadores alertam que a quantidade de anúncios produzidos com IA não garante sua capacidade de influenciar o resultado das eleições. Um relatório do Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York sugere que a "slopaganda" é "provavelmente mais eficaz na mobilização de eleitores ou na arrecadação de fundos do que na influência na eleição de um candidato".
O documento também aponta que esses anúncios podem ter dificuldade em capturar a atenção dos eleitores, especialmente em um cenário de excesso de conteúdos gerados por IA, "particularmente à medida que nos tornamos cada vez mais sobrecarregados pela confusão gerada pela IA". O principal desafio para os eleitores é discernir a veracidade das informações em meio a essa avalanche de conteúdos sintéticos.



