Nova geração de bilionários redefine filantropia com foco em impacto e estratégia

Destaques
- •Trilhões de dólares mudarão de mãos nas próximas décadas, impulsionando uma nova era de filantropia estratégica.
- •Jovens herdeiros buscam mensuração de resultados e inovação, distanciando-se do modelo tradicional de doações esporádicas.
- •Obstáculos como confiança, controle e infraestrutura digital ainda desafiam a colaboração entre grandes fortunas.
Uma transferência de riqueza sem precedentes, estimada em mais de US$ 83 trilhões globalmente nos próximos 20 a 25 anos, está prestes a colocar uma nova geração no comando de grandes fortunas. Essa mudança promete transformar a filantropia, com os novos detentores de patrimônio buscando abordagens mais estratégicas e mensuráveis para financiar causas sociais e ambientais, conforme aponta a pesquisa “Global Philanthropy Survey” do banco suíço Lombard Odier.
A pesquisa, que ouviu 260 indivíduos com ativos superiores a 1 milhão de francos suíços, revela que 80% dos entrevistados veem alinhamento intergeracional nas motivações para doar, com a vontade de retribuir à sociedade permanecendo como principal força (42%). No entanto, a maneira de doar está mudando: 27% da nova geração priorizam a inovação, ante 13% da geração anterior, e o interesse por métricas de impacto é três vezes maior.
Filantropia estratégica e mensurável
O Head Global de Filantropia do Grupo Lombard Odier, Dr. Maximilian Martin, explica que a nova geração não abandona os valores filantrópicos, mas os executa com maior sofisticação. A filantropia passa a ser vista como parte de uma arquitetura financeira familiar mais ampla, combinando doações com instrumentos como investimentos de impacto. A disciplina analítica aplicada aos negócios agora orienta a generosidade, com foco em resultados práticos e na resolução sistêmica de problemas, em vez de apenas o envio esporádico de cheques.
Essa transformação ocorre em um cenário de declínio na base tradicional de doadores de classe média em mercados como o Reino Unido, onde o volume total de doações beneficentes caiu para £ 14 bilhões em 2025, e nos Estados Unidos, onde grandes doadores destinaram US$ 22 bilhões em um único ano, enquanto doadores de renda média diminuem.
Desafios na colaboração e o papel da tecnologia
Apesar do desejo de colaboração, cinco obstáculos dificultam a ação conjunta: a construção de confiança interpessoal e de valores compartilhados; o dilema do controle sobre os resultados; o desalinhamento de expectativas entre os envolvidos; a busca por reconhecimento e protagonismo; e a falta de infraestrutura digital adequada para mapear, verificar e compartilhar dados de desempenho em tempo real.
A maior cobrança por dados e resultados também levanta discussões sobre os limites da mensuração de impacto e o papel da inteligência artificial (IA). Enquanto o “altruísmo eficaz” prioriza intervenções mensuráveis, modelos de filantropia comunitária valorizam o conhecimento local e as necessidades específicas de cada território. Martin ressalta que a IA pode auxiliar na seleção de projetos e acompanhamento, mas rejeita a ideia de que a tecnologia substitua o discernimento humano, enfatizando que a filantropia é o casamento entre paixão humana e análise técnica.
Cenários globais da filantropia
Na Suíça, a transição geracional ocorre em uma cultura de estabilidade, com mais de 13.700 fundações ativas e ativos superiores a CHF 100 bilhões. 82% dos doadores suíços relatam alinhamento intergeracional e 100% consideram a sustentabilidade de longo prazo um fator essencial.
Singapura se consolida como centro de filantropia de tecnologia avançada na Ásia, com mais de 2.400 entidades beneficentes e 2.000 family offices. Cerca de 35% dos doadores utilizam portais digitais e 43% acompanham investimentos por painéis de impacto.
Os Emirados Árabes Unidos transitam de tradições religiosas para estruturas corporativas modernas, destacando-se como a sétima nação mais generosa. Dubai supervisiona 1.294 fundos patrimoniais somando AED 13,5 bilhões em ativos.
No Reino Unido, 185 mil organizações beneficentes e 12,7 mil fundações movimentam £ 99 bilhões anualmente. Apesar de 80% dos doadores desejarem colaborar, apenas 8% conseguem concretizar projetos, necessitando de auxílio especializado.



