Vencedor do Prêmio Goncourt usou ChatGPT em romance premiado

Destaques
- •Escritor francês Philippe Jaenada, vencedor do Prêmio Goncourt de 2026, admitiu ter utilizado a inteligência artificial ChatGPT em seu romance 'L’Inconnue du quai de Javel'.
- •A revelação ocorre após outro livro ser retirado da disputa por suspeitas de autoria de IA, levantando debates sobre o uso da tecnologia na literatura.
- •Jaenada defende o uso da IA como ferramenta para escritores, enquanto a Academia Goncourt busca preservar a integridade da criação literária humana.
O escritor francês Philippe Jaenada, de 62 anos, vencedor do Prêmio Goncourt de 2026, revelou ter utilizado a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT na produção de seu romance L’Inconnue du quai de Javel (A desconhecida do cais de Javel), obra que lhe rendeu a principal distinção literária da França. A declaração foi feita em entrevista à rádio France Inter, um dia após receber o prêmio, e gerou repercussão em meio a discussões sobre o uso de IA na literatura.
Jaenada explicou que recorreu ao ChatGPT em três momentos distintos da escrita. Em uma das ocasiões, incluiu uma frase gerada pela IA como uma brincadeira com os leitores, informando os jurados sobre a passagem durante a cerimônia de premiação. Em outra situação, utilizou um trecho da ferramenta para ironizar respostas absurdas que recebeu ao consultar sobre uma questão técnica. A terceira aplicação da IA foi durante a fase de pesquisa para o desenvolvimento da obra.
Polêmica com outro romance e a IA
A declaração de Jaenada surge poucas semanas após a Academia Goncourt retirar o livro C’était ça ou mourir, do escritor canadense-haitiano Thélyson Orélien, da lista de indicados. A decisão ocorreu após suspeitas de que boa parte da obra teria sido produzida por ferramentas de IA. O romance já havia vendido mais de 35 mil exemplares na França e conquistado um prêmio literário.
A suspeita ganhou força após um jornalista submeter trechos da obra a uma ferramenta de detecção de IA, que apontou indícios de autoria artificial. Em setembro, a Academia Goncourt informou que análises indicavam a provável produção do livro com IA, justificando a retirada pela necessidade de preservar a integridade da premiação, dedicada à literatura escrita por humanos.
Orélien negou as acusações de uso de IA, classificando-as como calúnia, mas reconheceu ter cometido plágio em trabalhos anteriores. Posteriormente, a editora canadense Boréal encerrou a parceria com o escritor e anunciou que não faria novas tiragens do livro após identificar outras evidências de uso de IA no processo de escrita.
O romance premiado e o impacto da tecnologia
O livro L’Inconnue du quai de Javel, com aproximadamente 530 páginas, aborda o assassinato não solucionado de Louise Cansot, modelo de artistas encontrada morta em Paris em 1949. Jaenada reconstrói a trajetória da vítima e examina como ela foi retratada pela imprensa e autoridades da época.
Jaenada foi o vencedor na primeira rodada de votação, com seis votos, superando Sylvain Prudhomme. O Prêmio Goncourt, considerado o principal reconhecimento literário da França, concede uma quantia simbólica de 10 euros ao vencedor, mas impulsiona significativamente as vendas do livro escolhido.
O escritor também comentou o impacto da tecnologia no mercado editorial, defendendo que os escritores precisam aprender a lidar com os recursos de inteligência artificial. "Não acho que seja possível impedir o avanço da inteligência artificial. Não podemos fingir que ela não existe. É preciso usá-la, reconhecer sua existência e, acima de tudo, aprender a domá-la. Ela precisa ser útil", afirmou.



