Sal com potássio pode evitar 3 milhões de mortes por ano, diz estudo

Destaques
- •Substituir sal comum por versão com menos sódio e mais potássio pode prevenir quase 3 milhões de mortes anuais globalmente, segundo modelagem matemática.
- •Estudo publicado na Nature Health sugere que a troca, especialmente em casa, pode reduzir significativamente casos de doenças cardíacas, circulatórias e renais.
- •Adoção em larga escala depende de fatores como preço, oferta e adesão da indústria, com riscos de hipercalemia para pacientes com problemas renais.
A substituição do sal comum por uma versão enriquecida com potássio e menos sódio tem o potencial de evitar quase 3 milhões de mortes por ano em todo o mundo, o que representa cerca de 15% dos óbitos anuais causados por doenças do coração, da circulação e dos rins. A estimativa é de um estudo publicado na revista Nature Health por pesquisadores do The George Institute for Global Health, da Austrália, com colaboração de instituições dos Estados Unidos e da Europa. A pesquisa, que utilizou uma modelagem matemática, sugere que essa mudança também poderia prevenir mais de 10 milhões de novos casos dessas doenças anualmente.
O sal enriquecido, composto por 75% de cloreto de sódio e 25% de cloreto de potássio, tem como objetivo corrigir duas distorções comuns na dieta mundial: o consumo excessivo de sódio e a ingestão insuficiente de potássio. O sódio em excesso contribui para o aumento da pressão arterial ao reter água e enrijecer as artérias, enquanto o potássio atua no sentido oposto, auxiliando os rins a excretar sódio e promovendo o relaxamento dos vasos sanguíneos.
O que diz a ciência e a prática
A pesquisa é baseada em uma modelagem matemática que cruzou dados de consumo de sal, pressão arterial e carga de doenças em 193 países com informações de estudos anteriores sobre os efeitos do sódio e do potássio. Um grande ensaio clínico realizado na China com cerca de 21 mil pessoas por cinco anos, citado no estudo, demonstrou que o grupo que utilizou o sal enriquecido teve 14% menos AVCs, 13% menos eventos cardiovasculares graves e 12% menos mortes por qualquer causa em comparação com o grupo controle.
O cardiologista Elzo Mattar, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), destaca que o potássio tem um papel crucial na redução da pressão arterial, respondendo por boa parte da queda observada em estudos. A pressão alta é o principal fator de risco modificável para infarto, AVC e doença renal, protegendo assim coração, cérebro e rins simultaneamente.
O impacto na cozinha e os riscos
A simulação aponta que a maior parte do benefício viria da troca do sal utilizado na cozinha doméstica, evitando cerca de 1,85 milhão de mortes por ano, o que corresponde a 63% do total. O cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, observa que, apesar do crescimento do consumo de industrializados e refeições de restaurante no Brasil, o saleiro doméstico ainda é o principal responsável pelo excesso de sódio.
No entanto, a adoção do sal enriquecido não é isenta de riscos. A principal preocupação é a hipercalemia, o excesso de potássio no sangue, que pode levar a arritmias cardíacas e parada cardíaca. Esse risco é maior para pessoas com doença renal moderada ou avançada, que têm dificuldade em eliminar o potássio, e para aqueles que utilizam suplementos ou medicamentos que levam à retenção da substância. Nesses casos, a orientação médica é fundamental para avaliar a função renal e os níveis de potássio antes da adoção do produto.
O cenário brasileiro e os próximos passos
No Brasil, o consumo médio de sal é de cerca de 9 gramas por dia, quase o dobro dos 5 gramas recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Cerca de 25% a 30% dos adultos brasileiros sofrem de hipertensão, e doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no país. Embora o sal light vendido em supermercados contenha potássio, sua proporção pode diferir do ideal testado no estudo, reforçando a necessidade de cautela e orientação médica.
A implementação em larga escala da troca do sal no mundo, similar ao que ocorreu com o sal iodado, pode levar décadas. Fatores como o preço (atualmente, o sal enriquecido custa em média o dobro do sal comum), a oferta nas prateleiras e a adesão da indústria de alimentos serão determinantes para que a projeção do estudo se concretize. Especialistas ressaltam que, mesmo com o sal enriquecido, a meta principal continua sendo reduzir o consumo total de sal.



