Redução da jornada de trabalho pode elevar custos e exigir R$ 85 mil extras em caixa

Destaques
- •A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial, entra em vigor em dezembro de 2026 e 2027.
- •Estudo da Assertif estima que uma empresa com R$ 1 milhão de receita mensal pode precisar de R$ 85 mil adicionais para manter a reserva de caixa durante a adaptação.
- •A CNI projeta aumento de custos de produção em R$ 267,2 bilhões e alta de 6,2% nos preços ao consumidor, enquanto a CNC estima elevação de até 21% nos custos com folha de pagamento no comércio.
A partir de 16 de dezembro de 2026, a jornada de trabalho semanal máxima no Brasil será reduzida de 44 para 40 horas, sem alteração salarial e com dois dias de repouso remunerado. A medida, que terá um segundo estágio em 16 de dezembro de 2027 para atingir as 40 horas, exigirá que empresas reorganizem escalas, ampliem equipes ou aumentem a produtividade para manter suas operações. O impacto tende a se concentrar em setores que operam perto do limite legal ou precisam de disponibilidade contínua, como comércio, alimentação, limpeza e segurança.
Impacto financeiro e custos adicionais
Um estudo do Grupo Assertif, consultoria especializada em recuperação de créditos tributários, estima que uma prestadora de serviços com receita mensal de R$ 1 milhão precisaria de R$ 85 mil adicionais para preservar sua reserva mínima de caixa durante a adaptação à nova jornada. Esse valor corresponde à parcela de recursos que faltaria para a empresa manter sua reserva de caixa definida, considerando um cenário de reposição integral das horas com custo equivalente e sem ganho de produtividade.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que a redução da jornada pode elevar os custos de produção em até R$ 267,2 bilhões e reduzir o PIB em 0,7%, além de projetar uma alta média de 6,2% nos preços ao consumidor. Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que o fim da escala 6×1 pode elevar em até 21% os custos com a folha de pagamento do comércio, com um impacto anual de R$ 122,4 bilhões no varejo e R$ 235 bilhões nos serviços, com repasse aos preços podendo chegar a 13%.
Produtividade e desafios operacionais
A produtividade é um fator crucial para mitigar os efeitos da redução da jornada. Dados do FGV Ibre indicam que a produtividade cresceu, em média, 0,2% ao ano por trabalhador entre 1981 e 2024. Para evitar uma queda do PIB no cenário de 40 horas semanais, esse avanço precisaria ser de 1,4% ao ano, segundo cálculos da consultoria 4intelligence.
As empresas mais expostas ao risco são aquelas que necessitam manter pessoas presentes em horários definidos, possuem pouca margem para absorver novas despesas e demoram para transformar o aumento de custo em recebimento. Setores como serviços por postos, limpeza, vigilância, hospitais, hotelaria, logística, construção e algumas operações de varejo merecem atenção especial.
Reforma tributária e gestão de caixa
Um cenário que combina a despesa trabalhista com hipóteses tributárias e mudanças no capital de giro pode elevar a necessidade de recursos para R$ 350 mil, segundo a Assertif. Essa conta inclui adaptação fiscal, custo tributário adicional acumulado, menor disponibilidade de caixa por mudança de prazo e adiamento de créditos. O CEO da Assertif, José Guilherme Sabino, ressalta que o ponto central é entender como efeitos distintos podem se sobrepor no caixa quando acontecem no mesmo período, e que nem toda pressão sobre o caixa representa aumento definitivo da carga tributária.
Uma linha de crédito pode financiar o período entre o aumento da despesa e o recebimento do novo preço, mas a operação adaptada precisa gerar caixa suficiente para pagar juros e amortização. Sabino alerta que crédito contábil ou tese tributária não devem ser tratados como dinheiro disponível sem segurança jurídica e valor mensurado. Para estimar a necessidade real de recursos, as empresas devem cruzar dados de jornada, escalas, demanda por horário, custos de contratação, prazos de revisão de contratos, faturamento, recebimentos, tributação e caixa disponível.



