Mulheres na Política: Avanços Numéricos e Contradições Persistem em 2026

Destaques
- •Apesar do aumento de 21,2% na bancada feminina na Câmara em 2026, a representação de mulheres pretas e pardas ainda é desproporcional.
- •Candidaturas antifeministas e a negação de direitos como o de voto e autonomia reprodutiva por parlamentares mulheres expõem tensões ideológicas.
- •Acompanhar a atuação das novas parlamentares e a continuidade das políticas de igualdade salarial e proteção contra a violência de gênero.
Quase um século após o Brasil reconhecer o direito de voto feminino em 1932, as eleições de 2026 revelam um cenário de avanços numéricos na participação política das mulheres, mas também de profundas contradições e desigualdades que persistem. Embora a presença feminina nas instituições tenha crescido, a igualdade concreta ainda está distante, com mulheres enfrentando barreiras estruturais e ideológicas.
Em 2026, as mulheres representaram 34,8% das candidaturas registradas, um avanço modesto em relação a 2022. A desigualdade se acentua na composição racial: mulheres pretas e pardas, embora majoritárias entre as candidatas, permanecem sub-representadas no conjunto. Essa disparidade reflete uma estrutura política onde o direito de concorrer não se traduz em igualdade de recursos, exposição ou capacidade de transformar votos em mandatos, impactadas pela concentração de renda, divisão sexual do trabalho e desigualdades raciais.
Avanços e Desafios na Representação Feminina
As eleições de 2026 elegeram 109 deputadas federais, elevando a presença feminina a 21,2% das 513 cadeiras na Câmara, um aumento em relação a 2022. No Senado, 12 mulheres conquistaram vagas. Contudo, a proporção de mulheres eleitas ainda é inferior à do eleitorado, e as assimetrias raciais persistem: apenas 15 mulheres negras foram eleitas para a Câmara e nenhuma para o Senado. A conquista jurídica do voto, iniciada em 1932 e consolidada na Constituição de 1934, não eliminou as diferenças materiais e sociais que afetam a participação feminina.
A legislação eleitoral prevê cotas de 30% para candidaturas de cada sexo desde 2009, mas a efetividade é questionada por candidaturas fictícias e pela falta de acesso igualitário a recursos e tempo de propaganda. A violência política, como o assassinato de Marielle Franco em 2018, e ataques a candidatas como Ana Elisa Santos Silva, eleita aos 21 anos, demonstram os riscos e a hostilidade enfrentados por mulheres na política, especialmente quando combinados com raça e juventude.
Disputas Ideológicas e o Antifeminismo no Parlamento
A ampliação da presença feminina no parlamento não garante, por si só, o avanço da luta pela emancipação das mulheres. O pertencimento de gênero não impede divergências sobre direitos trabalhistas, políticas sociais, autonomia reprodutiva e distribuição de riqueza. Um exemplo notório em 2026 foi a eleição de deputadas como Ana Campagnolo e Eduarda Campopiano (PL), que assumiram publicamente uma identidade antifeminista.
Esse fenômeno expõe uma contradição histórica: o acesso de mulheres a cargos conquistados por mobilizações feministas pode fortalecer agendas críticas ao próprio feminismo. A negação do feminicídio por parlamentares, por exemplo, busca deslegitimar políticas de prevenção e proteção. Da mesma forma, propostas de restrição aos direitos reprodutivos, como o aborto em casos legais, partindo de mulheres, fortalecem setores conservadores que buscam maior controle sobre o corpo feminino.
A dimensão de classe também é relevante, como na votação da Lei nº 14.611/2023 sobre igualdade salarial. Dez deputadas federais votaram contra a proposta, utilizando argumentos de "liberdade empresarial" e "desconfiança em relação à intervenção estatal". Essas justificativas, pautadas na defesa de interesses conservadores, contrastam com a experiência de desigualdade vivida por mulheres negras, trabalhadoras e periféricas, que enfrentam obstáculos distintos e dispõem de menos recursos para superá-los.
Próximos Passos e o Futuro da Representação
A ascensão individual e a emancipação coletiva não são sinônimos. Defender o direito de mulheres de qualquer orientação política a disputar e exercer mandatos não significa suspender a crítica aos programas que defendem. O feminismo não se traduz em uma identidade parlamentar automática, e a eleição de mulheres não dissolve antagonismos entre capital e trabalho, conservadorismo e transformação social.
As eleições de 2026, portanto, demonstram que, noventa e quatro anos após o sufrágio feminino, o crescimento da bancada de mulheres é um avanço parcial. As mesmas instituições que acolhem representantes comprometidas com a ampliação de direitos também abrigam um número crescente de mulheres que contestam esses mesmos direitos ou defendem políticas que acentuam desigualdades. A luta pela igualdade na política brasileira continua, exigindo vigilância sobre quem ocupa os mandatos e quais interesses orientam suas decisões.
Matérias originais
- Eleições de 2026: mais mulheres no poder, mas a serviço de quais projetos? · operamundi.uol.com.br



