Produtores de cannabis buscam em data centers de IA saída para crise

Destaques
- •Queda nos preços da maconha e aumento de impostos levam produtores a tentar converter instalações de cultivo em data centers de IA.
- •Projetos enfrentam resistência local e moratórias em cidades, dificultando a conversão e a recuperação de investimentos.
- •Oportunidade de negócio para data centers menores e regionais surge em meio à expansão do setor de inteligência artificial.
A indústria de cultivo de cannabis nos Estados Unidos enfrenta uma crise de rentabilidade, com a queda acentuada nos preços da maconha e o aumento de impostos. Produtores como Michael Ward, fundador da Harbor Farmz em Michigan, estão buscando desesperadamente novas formas de monetizar suas extensas instalações. Ward investiu US$ 20 milhões (R$ 100,5 milhões) em 2020 para construir uma unidade de 3.052 metros quadrados, que hoje vê o preço da libra de maconha despencar de US$ 2.500 para US$ 700. Com impostos consumindo cerca de 75% da receita e faturamento projetado para cair de US$ 6,5 milhões para US$ 3 milhões neste ano, ele vê a conversão para um data center de inteligência artificial (IA) como única saída para recuperar seu investimento.
A aposta em data centers de IA
As instalações de cultivo de cannabis possuem características que atraem desenvolvedores de data centers de IA, como infraestrutura elétrica robusta, capacidade de expansão, climatização avançada e cabeamento de fibra óptica. A Harbor Farmz, por exemplo, conta com infraestrutura elétrica para 1,5 megawatt, com potencial de expansão para 15 megawatts. Ward calculou que um data center geraria US$ 1 milhão em receitas tributárias anuais para Kalamazoo, ante os US$ 60 mil atuais, além de permitir a recuperação de seu investimento inicial.
Outras empresas, como a Jade em Las Vegas, também anunciaram antigas instalações de cultivo como potenciais locais para data centers. A ideia é atrair o capital abundante do setor de IA para escapar da dura realidade de um produto agrícola em desvalorização.
Resistência e moratórias freiam planos
Apesar do potencial financeiro, a transição para data centers enfrenta obstáculos significativos. Em Kalamazoo, o plano da Harbor Farmz foi rejeitado pela Câmara Municipal após forte oposição de moradores, que alertaram sobre poluição sonora, aumento nas contas de eletricidade e sobrecarga da rede. A cidade aprovou uma moratória que bloqueia o desenvolvimento de data centers até agosto de 2027, prendendo Ward à sua instalação de cultivo.
Situação semelhante ocorreu em Nova York, onde uma moratória estadual contra data centers já elimina metade do mercado. Em Portland, Nova York, um projeto de data center em um terreno de 17,81 hectares foi adiado por tempo indeterminado devido ao clima político desfavorável e à proibição estadual de um ano.
Oportunidade para data centers menores
Especialistas como Jeffrey Moerdler, advogado especializado em data centers, observam um aumento em negócios envolvendo instalações menores, à medida que a disponibilidade de energia e terrenos para grandes empreendimentos se torna mais restrita. Ele aponta uma oportunidade para data centers de inferência regionais e locais, na faixa de 10 a 50 megawatts, onde instalações de cultivo de cannabis poderiam se encaixar.
Um exemplo promissor é uma antiga instalação de cultivo da Aurora no Canadá, com 12.077 metros quadrados, que possui fibra óptica de 10 Gbps e 7 megawatts de potência elétrica. O corretor Mike Walsh afirma que a propriedade recebeu uma proposta de um operador de data centers e espera concluir a negociação rapidamente, pois o mercado agora aceita instalações com capacidade elétrica acima da média.
Apesar do otimismo de alguns, outros, como o corretor Daniel Tropp, especializado em imóveis para o setor de cannabis, veem a conversão para data centers como uma fantasia que dificilmente se realizará em larga escala, devido a requisitos de metragem, energia e a necessidade de alinhamento com políticas municipais e estaduais.


