Economistas alertam para risco fiscal e dólar a R$ 6 sem ajustes

Destaques
- •Analistas apontam necessidade urgente de ajustes na política fiscal brasileira após reeleição de Lula.
- •Projeções indicam possível alta do dólar para R$ 6 e aumento da dívida pública para 95% do PIB sem medidas de controle de gastos.
- •Mercado aguarda pacote de consolidação fiscal e demonstração de capacidade de aprovação no Congresso.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato presidencial acendeu um alerta entre economistas e analistas de mercado sobre a necessidade urgente de ajustes na política fiscal brasileira. Especialistas apontam que a ausência de sinais claros de disciplina nas contas públicas pode levar a uma deterioração do cenário econômico, com pressão sobre o câmbio, inflação e juros, além de comprometer a atividade econômica.
O economista Marcos Lisboa, sócio-diretor da Gibraltar Consulting, defendeu uma revisão do Orçamento de 2027 e a retomada de um limite para o crescimento das despesas públicas como medidas essenciais para evitar uma crise mais grave. Segundo ele, o aumento de gastos e as medidas adotadas no final da campanha eleitoral não foram suficientes para compensar a deterioração das expectativas, e o Brasil enfrenta um problema fiscal severo.
Revisão do orçamento e teto de gastos são cruciais
Lisboa propôs que o governo reveja o orçamento do próximo ano e adote medidas para interromper o crescimento das despesas obrigatórias, como salários e aposentadorias. Ele sugeriu a retomada do teto de gastos, defendendo um modelo em que a despesa total permaneça estável, e criticou o atual arcabouço fiscal por considerá-lo inconsistente e incapaz de transmitir credibilidade.
Entre as despesas que precisam ser revistas, o economista destacou os gastos previdenciários e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Lisboa defendeu a discussão sobre a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo e a escolha de um ministro da Previdência com capacidade de gestão.
Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting, também avalia que as medidas discutidas até o momento são insuficientes diante dos desafios fiscais. Ela ressaltou a necessidade de um anúncio robusto e tempestivo, especialmente diante de uma dinâmica de mercado preocupante, com discussões sobre alta de juros pelo Copom. Latif defende ajustes no arcabouço fiscal em vez de uma reformulação completa, enfatizando a importância da credibilidade na execução das regras.
Congresso e pacotes fiscais como contrapeso
O banco UBS avalia que a composição do Congresso Nacional, com inclinação à direita, pode funcionar como um contrapeso à política econômica do novo governo, limitando o risco de uma deterioração mais profunda das condições fiscais. No entanto, o banco ressalta que o cenário-base continua sendo de correção após o rali recente dos ativos brasileiros.
Para que investidores aceitem um novo arcabouço fiscal e o sentimento em relação ao Brasil se estabilize, o UBS aponta três condições: a apresentação de um pacote de consolidação fiscal com medidas quantificadas, a conciliação dos compromissos de gastos de campanha estimados em cerca de R$ 300 bilhões com o esforço de ajuste fiscal, e a demonstração da capacidade de aprovar essas medidas em um Congresso de inclinação à direita antes do fim do ano.
Zeina Latif destacou que o orçamento da União está praticamente todo comprometido, com pouca margem de manobra em despesas não obrigatórias. Ela considera que o desafio é muito mais político do que técnico, especialmente em conter o crescimento das despesas obrigatórias de caráter constitucional.
Dólar a R$ 6 e dívida pública em alta
Na ausência de ajustes fiscais, o Morgan Stanley avalia que o dólar pode chegar a R$ 6, com investidores incorporando riscos de dominância fiscal aos preços dos ativos. Esse cenário mais pessimista envolveria a ausência de sinalizações de ajustes fiscais nas próximas semanas.
A Capital Economics projeta que a dívida pública brasileira passe de aproximadamente 82,5% do PIB em 2026 para cerca de 95% ao fim do próximo mandato, em 2030. A consultoria considera que há poucos sinais de que o próximo governo adotará uma política fiscal mais disciplinada e que o arcabouço fiscal introduzido em 2023 carece de credibilidade.
O economista-chefe da Nomos, Beto Saadia, afirmou que o movimento de acionamento do circuit breaker na B3 não é uma reação ao presidente, mas sim porque os investidores se posicionaram para um cenário e aconteceu algo que era visto como improvável. Ele alertou para um cenário de Lula com um fiscal deteriorado e um Congresso em polo político oposto ao Executivo, o que o torna pessimista.
O mercado financeiro aguarda com expectativa novos anúncios do governo em relação às contas públicas. Zeina Latif apontou que há muito ceticismo no mercado em relação à meta de superávit para o ano seguinte, sempre com dúvidas sobre as estimativas de receita e despesa. Ela avaliou que os próximos passos, com a necessidade de aprovação do orçamento e da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), serão testes concretos para a gestão fiscal, e que este é o momento de dar um sinal mais contundente sobre os próximos anos na gestão fiscal.
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