JPMorgan: Brasil é último grande teste de ciclo eleitoral com anti-incumbência

Destaques
- •Relatório do JPMorgan analisa ciclos eleitorais na América Latina e aponta Brasil como "último grande teste" de um padrão de anti-incumbência e influência da geopolítica.
- •O banco destaca que, mesmo com a definição política no Brasil, a composição do gabinete e a relação com o Congresso serão cruciais para o impacto econômico.
- •Próximos testes eleitorais na região incluem a Argentina em 2027, onde a capacidade de entregar resultados econômicos será fundamental para a continuidade de mandatos reformistas.
O banco de investimento JPMorgan publicou um amplo relatório analisando os ciclos eleitorais recentes na América Latina, com foco no Brasil como o "último grande teste" de um padrão que tem sido marcado pela forte anti-incumbência (rejeição ao ocupante do cargo), a ascensão da pauta de segurança pública e a crescente influência da geopolítica. O documento, intitulado "Testing time in Brazil" (Hora de testar o Brasil), foi assinado pelos economistas Cassiana Fernandez, Mirella Sampaio e Gustavo Ribeiro.
Os analistas do JPMorgan avaliam que o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, que colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula, e a maior representação da direita no Congresso podem criar uma "configuração legislativa mais favorável" para o candidato vitorioso. No entanto, o banco alerta para a "visibilidade limitada sobre a agenda econômica específica que seria implementada em caso de vitória dele".
O relatório ressalta que, embora o segundo turno defina a direção política do país, os mercados financeiros estarão atentos às decisões que se seguirão. "A composição do gabinete, a estratégia legislativa e o relacionamento com o Congresso serão essenciais para avaliar o impacto econômico nos próximos anos", afirma o documento.
Anti-incumbência e segurança pública como temas centrais
O estudo do JPMorgan traça um panorama dos ciclos eleitorais de 2025-2026 na região, que resultaram em "mudança substancial de governo" nas principais economias. O fenômeno da anti-incumbência se fortaleceu, mas não de forma automática. A Argentina, com o governo Milei, obteve um bom desempenho nas eleições de meio de mandato, fortalecendo sua posição no Congresso. O México, em 2024, apresentou uma forma de continuidade com o partido Morena mantendo e fortalecendo sua posição política.
"O padrão regional aponta menos para uma rejeição mecânica dos incumbentes do que para a disposição contínua dos eleitores em mudar de direção política quando o status quo perde credibilidade", interpretam os analistas. O relatório também destaca a segurança pública como um "tema eleitoral definidor" em toda a região, com candidatos de direita sendo eficazes em vincular a insegurança a um argumento mais amplo por mudança política.
O enfraquecimento do "dividendo fiscal" e a influência geopolítica
Uma das descobertas mais relevantes do relatório é o enfraquecimento do "dividendo fiscal" — a capacidade de gastos públicos gerarem apoio eleitoral. Utilizando dados de 44 eleições presidenciais em nove países latino-americanos desde 2004, o JPMorgan estima que a correlação positiva entre crescimento dos gastos reais e votos no incumbente, que existia até o final da década passada, enfraqueceu-se e tornou-se negativa nas janelas mais recentes. "A expansão fiscal parece ter se tornado progressivamente menos eficaz como fonte de proteção eleitoral", conclui o banco.
A geopolítica também ganhou peso significativo. O estudo destaca a postura mais ativista dos EUA em relação à América Latina, diferenciando governos com base em sua relação política com Washington. Na Argentina, o apoio dos EUA ao governo Milei foi parte da estabilização, enquanto na Colômbia, a deterioração das relações com Washington sob Petro foi uma linha divisória explícita na eleição.
Próximos passos e desafios para a região
O JPMorgan adverte que "a virada política não tem produzido consistentemente fortalecimento institucional". Apesar da resiliência da competição democrática, a polarização, a fraca confiança nas instituições e os conflitos judiciais e políticos recorrentes limitaram a implementação de reformas. O documento cita exemplos de como sinais eleitorais iniciais podem enganar, como no México, que gerou ceticismo inicial no mercado, mas produziu moderação política posterior.
Após o segundo turno brasileiro, o próximo grande teste para os mercados será a eleição presidencial argentina de 2027. "Em vez de perguntar se os eleitores estão dispostos a mudar de rumo, a questão será se eles permanecem dispostos a manter o curso", pondera o banco. A avaliação é que, até lá, a estabilização pode ter reduzido distorções macroeconômicas sem entregar seu dividendo econômico completo. "O teste eleitoral será se essas conquistas são suficientes para persuadir os eleitores a estender o mandato reformista."
O relatório conclui que, embora os eleitores na região demonstrem disposição para mudar de direção política, entregar a mudança prometida e transformá-la em maior produtividade e crescimento tem se mostrado consideravelmente mais difícil. "A credibilidade eleitoral pode comprar tempo, capital político e melhores condições financeiras para os governos; apenas a implementação pode transformar essas vantagens em resultados econômicos duradouros."



