Jornalismo brasileiro debate uso de IA e remuneração por conteúdo

Destaques
- •Veículos de imprensa brasileiros buscam adaptação à Inteligência Artificial, explorando usos para aumentar produtividade e criar novos produtos.
- •O dilema central reside na remuneração do conteúdo jornalístico que alimenta modelos de linguagem, com negociações em andamento com big techs.
- •A sustentabilidade econômica do jornalismo de qualidade e a preservação da relação de confiança com a audiência são pontos cruciais para o futuro.
O jornalismo brasileiro enfrenta um paradoxo com a Inteligência Artificial (IA): enquanto a tecnologia aumenta a produtividade nas redações, o conteúdo jornalístico alimenta grandes modelos de linguagem sem a devida remuneração aos veículos. O debate sobre como as redações estão se adaptando a essa realidade foi tema do evento “IA no jornalismo: como as redações brasileiras estão se adaptando”, organizado pelo Observatório da Imprensa e pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor).
Uma pesquisa do COM+, da USP, analisou as inovações em IA no setor, dividindo-as em incrementais (aumento de eficiência, redução de custos) e disruptivas (criação de novos produtos). A pesquisa também categorizou os veículos em quatro quadrantes: diversificadores de receita (Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, UOL), desbravadores independentes (Núcleo Jornalismo, Aos Fatos, Agência Tatu), orquestradores estratégicos (Grupo Globo) e disruptores de mercado (nenhum identificado).
Usos da IA nas redações brasileiras
Veículos do Grupo Globo utilizam IA para reconstrução visual de fatos, dublagem em português, criação de títulos e artes para redes sociais, e análise de comentários para entender a demanda do público. O UOL emprega a tecnologia para transcrição, seleção e redação de notícias rotineiras, clonagem de voz de colunistas para conteúdo em áudio, e criação de imagens e animações.
O Estadão foi pioneiro na criação de um chatbot com IA, o LeIA, enquanto a Folha desenvolveu o CozinhAI. Essas iniciativas representam um "reempacotamento da produção jornalística", segundo o pesquisador João Pedro Malar, onde o processo de construção do chatbot ainda envolve apuração jornalística.
Outras inovações incluem o "vibe coding", que acelera a criação de sites e painéis, como no caso do Núcleo Jornalismo com o Nuclito e Legislatech, viabilizando novos produtos com custos menores. Aos Fatos utiliza a ferramenta Escriba para transcrição, gerando receita, e desenvolveu o Busca Fatos para checagem em tempo real. A Agência Tatu comercializa produtos como alertas meteorológicos por WhatsApp e automação de publicação de vagas de emprego.
Acordos e desafios com as Big Techs
O UOL tem acordo com a OpenAI, o Estadão com o Google, e a Folha com ambas. No entanto, executivos divergem sobre o melhor caminho, temendo a irrelevância do conteúdo jornalístico em chatbots e a repetição do cenário de prejuízos causado por mecanismos de busca e redes sociais.
Há uma desigualdade na negociação com as big techs, que preferem acordos individuais a negociações setoriais. A precificação dos licenciamentos é difícil, pois falta transparência sobre os valores e tipos de acordo fechados com concorrentes. Enquanto diversificadores de receita negociam individualmente e orquestradores estratégicos defendem negociações coletivas, desbravadores independentes buscam regulação como solução.
Marcelo Rech, presidente-executivo da ANJ, questiona a sustentabilidade econômica do jornalismo de qualidade em um modelo que pode destruí-la. Ele sugere a cobrança por acesso à informação, similar ao modelo de streaming na indústria fonográfica, propondo micropagamentos a cada acesso de IA ao conteúdo. A ANJ estuda processos judiciais contra as big techs pela estratégia de negociações individuais.
O tráfego por buscas diminui com o uso de chatbots, desconectando a audiência dos veículos. Carla Egydio, da Associação de Jornalismo Digital, alerta que a falta de cliques e a leitura direta dos resultados em chatbots impedem a criação de uma relação de confiança com o veículo.
O valor renovado dos acervos
Conteúdos antigos, antes subutilizados, ganham destaque nas negociações de IA. Jornais centenários com acervos digitalizados podem oferecer narrativas históricas completas. O Financial Times, por exemplo, usa seu acervo para prever aumentos na taxa de juros na Europa.
"O uso do acervo é muito relevante, tem muito valor e antes era deixado de lado e passa a ser um grande ativo dos veículos de comunicação", comenta Rech. A apuração jornalística, com seu contexto histórico e precisão, é fundamental para alimentar a IA com informações confiáveis, diminuindo a possibilidade de "alucinações" e garantindo a qualidade da informação.
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