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IA acelera busca por bens de devedores, mas recuperação de dívidas ainda é complexa

30 de outubro de 2026
IA acelera busca por bens de devedores, mas recuperação de dívidas ainda é complexa

Destaques

  • •Inteligência artificial é usada para cruzar dados e analisar documentos na busca por patrimônio de devedores.
  • •Apesar da tecnologia, a recuperação de dívidas enfrenta obstáculos como informações dispersas e complexidade jurídica.
  • •Próximos passos envolvem a consolidação de bases de dados e a interpretação jurídica das informações encontradas.

A inteligência artificial (IA) tem se tornado uma ferramenta cada vez mais importante na busca por bens de devedores, agilizando o cruzamento de informações e a análise de documentos. No entanto, a recuperação de dívidas no Brasil ainda é um processo complexo, que vai além da simples localização do patrimônio. O país registrou 9,3 milhões de empresas inadimplentes em agosto de 2026, com um total de R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas, segundo a Serasa Experian. Na esfera judicial, a taxa de congestionamento de processos em fase de execução atingiu cerca de 71% em 2025, conforme o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), evidenciando os desafios na efetivação das cobranças.

Por que é difícil encontrar bens de devedores?

Um dos principais entraves é a falta de um cadastro unificado que concentre todo o patrimônio de uma pessoa ou empresa, juntamente com sua situação jurídica completa. Atualmente, registros de imóveis, veículos, participações empresariais e outros direitos estão dispersos em diferentes bases de dados. Profissionais de cobrança precisam, portanto, realizar consultas e cruzamentos extensivos para reunir essas informações e investigar possíveis vínculos entre pessoas físicas e jurídicas.

As dificuldades na busca por bens incluem a dispersão das informações em múltiplos sistemas, a complexidade das relações patrimoniais – como transferências de bens ou patrimônios em nome de terceiros – e a necessidade de analisar documentos extensos, muitas vezes antigos ou de baixa qualidade digital, que exigem horas de leitura e conferência. Mesmo após localizar um registro, como uma matrícula imobiliária, é preciso verificar se o bem pertence ao devedor e se há restrições legais para sua penhora.

Como a inteligência artificial auxilia na investigação patrimonial?

As tecnologias de IA atuam em diversas frentes nesse processo. Algumas ferramentas auxiliam na localização de registros, outras no cruzamento de informações para identificar vínculos econômicos, e há ainda aquelas focadas na leitura e organização de documentos. Entre as soluções destacadas estão a Pesquisa Nacional de Bens do Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR), que reúne dados de mais de 3.600 cartórios e 90 milhões de matrículas imobiliárias, e o sistema Sniper do CNJ, que permitiu cerca de 550 mil buscas em um ano.

Empresas privadas como a Neoway (da B3) e a Hunter oferecem soluções de cruzamento de informações patrimoniais e empresariais. A Docket, por sua vez, utiliza IA para extrair e organizar dados de documentos, incluindo registros imobiliários. A LEME Inteligência Forense desenvolveu uma ferramenta que automatiza a leitura de matrículas, tendo processado 462 mil matrículas desde maio de 2026, em investigações que podem envolver mais de 600 matrículas para um único devedor. Contudo, Leonardo Botelho Schulka, da LEME, ressalta que a interpretação jurídica e a conferência dos resultados nos registros originais continuam sendo responsabilidades dos profissionais.

Encontrar patrimônio não garante a recuperação da dívida

A localização de um bem é apenas uma etapa do processo de cobrança. Mesmo quando o patrimônio é identificado corretamente, podem existir impedimentos legais para sua penhora. Um exemplo é o bem de família, protegido pela lei nº 8.009/1990, que, em regra, não pode ser penhorado, salvo em exceções previstas na lei. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou em agosto de 2026 que o alto valor de mercado de uma residência não afasta essa proteção.

A investigação patrimonial também deve respeitar as leis de proteção de dados e as autorizações judiciais necessárias. Portanto, embora as ferramentas digitais acelerem a localização de registros e a análise de documentos, elas não garantem a comprovação de que os bens encontrados podem ser penhorados, nem asseguram a recuperação do crédito pelo credor.

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