Indígenas do MS denunciam violência e ameaças após eleições presidenciais

Destaques
- •Comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul relatam aumento de ameaças e violência após o segundo turno das eleições presidenciais.
- •Incêndio criminoso destruiu a casa de uma rezadeira de 90 anos e instrumentos sagrados na aldeia Jaguapiré, em Tacuru.
- •Governo federal e MPF investigam denúncias e buscam punir responsáveis pelos ataques.
Comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul denunciam uma escalada de ameaças e violência em suas aldeias após o encerramento do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. Um dos casos mais graves relatados é o incêndio criminoso da casa da rezadeira de 90 anos, Ñandesy Roberta, na aldeia Jaguapiré, em Tacuru, ocorrido na manhã de quinta-feira (29). O fogo destruiu não apenas a residência, mas também instrumentos sagrados utilizados em rituais tradicionais dos povos Kaiowá e Guarani, o que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) considera uma grave violação de direitos e da liberdade religiosa.
Intensificação dos ataques e ameaças
Segundo Voninho Guarani Kaiowá, coordenador da Apib, os ataques e ameaças contra as comunidades Guarani Kaiowá se intensificaram nos últimos dias. Ele repudiou os acontecimentos e cobrou das autoridades a investigação e punição dos responsáveis. A Apib afirma ter contabilizado mais de 30 casos de violência contra povos indígenas relacionados ao processo eleitoral deste ano em Mato Grosso do Sul, incluindo ataques, ameaças e atropelamentos que já resultaram em mortes.
Um caso de envenenamento também foi denunciado. Na noite de domingo (25), após a divulgação do resultado das eleições, áudios circularam nas redes sociais atribuindo a vitória do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva ao voto indígena. Em uma das mensagens, um homem não identificado, posteriormente confirmado pelo prefeito Rogério Torquetti (PSDB) como um servidor público municipal, sugere envenenar a água de uma aldeia.
O prefeito de Tacuru afirmou que o servidor, descrito como um "excelente servidor", foi temporariamente afastado e um processo administrativo disciplinar foi instaurado. No entanto, Torquetti minimizou o caso, alegando que o homem não mencionou indígenas e que a sugestão era genérica. Em outro áudio, um segundo servidor municipal ofendeu os indígenas por terem votado no candidato petista e fez ameaças a um interlocutor.
Investigação e medidas governamentais
Diante da gravidade dos relatos, o Ministério dos Povos Indígenas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) acionaram a Polícia Federal (PF) e estão acompanhando as denúncias. O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, anunciou a criação de uma força-tarefa interministerial para centralizar e receber denúncias de ataques e ameaças. O Ministério da Justiça também requisitou informações de todas as corregedorias estaduais e do Distrito Federal.
O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF-MS) instaurou procedimentos para apurar a veracidade das acusações e garantir a proteção dos territórios indígenas. No entanto, em Naviraí, o MPF concluiu que denúncias de supostos homicídios por conflitos políticos eram "boatos" e imagens foram "falsamente associadas" a ataques. Já no caso de Tacuru, o MPF deu um prazo de 48 horas para a prefeitura prestar informações sobre a atuação dos servidores municipais, recomendando a instauração de processo administrativo disciplinar e o afastamento cautelar dos envolvidos.
Matérias originais
- Funai aciona PF e pede apuração de casos de ataques contra indígenas · agenciabrasil.ebc.com.br
- MPF e PF investigam denúncias de violência contra indígenas em MS · operamundi.uol.com.br



