Heróis corporativos: O perigo de valorizar a reação em detrimento da prevenção

Destaques
- •Empresas tendem a premiar a resolução de crises, ignorando profissionais que evitam problemas.
- •A cultura de 'prêmio do incêndio' incentiva a emergência em vez da prevenção, gerando custos ocultos.
- •A dificuldade em medir a prevenção leva à perda de talentos que evitam falhas, impactando a operação a longo prazo.
A forma como empresas avaliam e recompensam seus funcionários pode estar incentivando a ocorrência de crises em vez de sua prevenção. Em entrevistas de emprego e avaliações de desempenho, profissionais que enfrentaram e resolveram grandes problemas, os chamados 'heróis da madrugada', tendem a ser mais valorizados do que aqueles que atuam silenciosamente para evitar que falhas aconteçam. Essa dinâmica, apelidada de 'prêmio do incêndio', cria um ciclo vicioso onde a capacidade de reação é celebrada, mas a proatividade e a prevenção são negligenciadas.
O problema reside na dificuldade de quantificar e reconhecer o trabalho de quem evita problemas. Enquanto um incêndio apagado tem um começo, meio e fim claros, com um protagonista e um resultado tangível, a prevenção se manifesta pela ausência de falhas. Profissionais que identificam e corrigem pequenos atritos antes que se tornem conflitos, ou que consertam sistemas antes que caiam, não geram histórias dramáticas para contar. Seus feitos são invisíveis, e, com o tempo, a empresa aprende a aplaudir apenas o que consegue ver.
O ciclo da emergência e a falta de aprendizado
A cultura do 'prêmio do incêndio' se consolida quando alertas sobre falhas recorrentes são ignorados por falta de prioridade ou orçamento. Meses depois, quando a falha se transforma em crise, recursos e atenção extraordinária são mobilizados. A organização celebra a capacidade de reação, mas raramente volta à origem para questionar por que o alerta inicial não foi ouvido. Esse padrão ensina aos colaboradores que a visibilidade e o reconhecimento vêm da resolução de emergências, não da prevenção.
Para o profissional que apaga o incêndio, a valorização contínua em situações de crise pode se tornar uma identidade. Deixar de ser necessário pode parecer uma perda de importância, levando-o a se acostumar a ser valorizado apenas quando tudo dá errado. A empresa, por sua vez, passa a depender desses 'salvadores', deixando de corrigir as falhas estruturais que tornam esses salvamentos necessários.
O custo da prevenção ignorada
A prevenção exige evidências concretas, como falhas que deixaram de se repetir ou processos mais confiáveis, algo que é mais difícil de medir do que uma ação de emergência. Essa dificuldade se torna uma desculpa conveniente para as empresas. O resultado é a saída silenciosa de profissionais que evitam problemas, levando consigo o conhecimento para mantê-los afastados. Sem eles, a operação começa a falhar em pontos antes inexistentes, e a empresa, sem perceber a perda, busca novos 'heróis' para consertar o que antes era mantido em funcionamento.
Uma empresa que precisa permanentemente de heróis deveria questionar por que continua necessitando ser salva. O melhor profissional nem sempre é aquele que apaga o incêndio, mas sim aquele que, ao longo do ano, evitou que ele sequer começasse. A dificuldade em reconhecer e valorizar a prevenção representa um prejuízo silencioso, mas significativo, para a saúde e a eficiência organizacional.
Matérias originais
- Ninguém é promovido pelo problema que não aconteceu · estadao.com.br



