Fundos de pensão reduzem risco e focam em renda fixa, com olho no exterior

Destaques
- •Fundos de pensão no Brasil atingiram o nível mais conservador em décadas, com 86,2% dos ativos em renda fixa.
- •A alocação em renda variável caiu para 4,7%, enquanto ETFs ganham espaço, e há planos de aumentar investimentos no exterior a partir de 2027.
- •O governo enfrenta um grande desafio de refinanciamento de títulos atrelados à Selic em 2027, com R$ 585 bilhões vencendo em março.
Os fundos de pensão no Brasil atravessam um dos períodos mais conservadores de suas carteiras, com a renda fixa dominando 86,2% do total de ativos geridos, o equivalente a cerca de R$ 1,1 trilhão. Esse cenário, revelado por um levantamento da Itajubá Investimentos com entidades que somam R$ 461 bilhões sob gestão, reflete um longo período de juros altos, com a taxa Selic acima de 10% ao ano por quase cinco anos.
A concentração em renda fixa, que saltou de 53% em 2013 para quase 90% em 2026, é impulsionada pela busca por cumprir as metas atuariais. Os títulos do Tesouro IPCA+ (NTN-B) são os preferidos, respondendo por 90% do montante em renda fixa, pois têm oferecido retornos de inflação mais 7,5% a 8% ao ano. No entanto, especialistas alertam para a necessidade de a indústria começar a adicionar mais risco às carteiras.
Renda variável em baixa, ETFs em alta
A parcela de recursos aplicada em renda variável despencou de 34% em 2013 para os atuais 4,7%. Dentro desse universo reduzido, as ações tradicionais perderam espaço para os ETFs (fundos de índice), cuja participação aumentou de 15% para 36%. Essa dinâmica espelha a situação da bolsa brasileira, que, apesar de atingir patamares recordes no Ibovespa, enfrenta uma seca de ofertas iniciais de ações (IPOs) há cinco anos, período em que 48 empresas deixaram o mercado.
Planos de diversificação para o exterior
Apesar da forte alocação em renda fixa, os fundos de pensão planejam aumentar a diversificação a partir de 2027, com foco em ativos no exterior. Metade das entidades pretende elevar a parcela internacional nos próximos 12 meses, percentual que sobe para 53% em um horizonte de três anos. A principal motivação para investir fora do país é a busca por diversificação e baixa correlação com os ciclos locais. Os mandatos globais, que permitem alocar em qualquer país, já representam 67% das estratégias internacionais.
Desafio de refinanciamento da dívida pública
Paralelamente, o governo federal se prepara para um desafio significativo de refinanciamento da dívida pública em 2027. Em março, vencerão R$ 585 bilhões em títulos atrelados à Selic (LFTs, conhecidas como Tesouro Selic), o maior vencimento da série histórica. Em setembro, outros R$ 504 bilhões expiram. Juntos, esses pagamentos somam 64% do total de R$ 1,7 trilhão que o Tesouro Nacional tem a quitar no ano.
Especialistas como Sérgio Goldenstein, da Eytse Estratégia, não preveem grandes dificuldades para o refinanciamento, pois parte dos recursos tende a retornar para títulos públicos. O governo também conta com um "colchão de liquidez" estimado em R$ 1,4 trilhão ao final de 2026. O sucesso dependerá das condições de financiamento, com o Tesouro buscando reduzir a dependência de juros flutuantes, que hoje representam 52,7% da dívida federal, ampliando a emissão de prefixados e NTN-Bs com cautela.
Para o investidor pessoa física que utiliza o Tesouro Selic como reserva de emergência, a decisão natural tende a ser o reinvestimento em títulos de baixo risco, como o próprio Tesouro Selic ou o Tesouro Reserva, dada a necessidade de liquidez e baixa oscilação.



