Fundos de pensão batem recorde em renda fixa e planejam mais alocação

Destaques
- •Fundos de pensão brasileiros atingiram o maior nível histórico de concentração em renda fixa, chegando a 86,2% das carteiras.
- •A alta exposição à renda fixa é impulsionada pelas elevadas taxas de juros no Brasil, que oferecem retornos superiores às metas dos fundos.
- •Apesar do recorde, 31% das entidades planejam aumentar ainda mais a alocação em títulos públicos nos próximos 12 meses, enquanto 50% pretendem ampliar investimentos no exterior.
Os fundos de pensão brasileiros alcançaram um patamar recorde de concentração em renda fixa, com 86,2% de suas carteiras alocadas neste segmento. Este aumento de 6,8 pontos percentuais nos últimos três anos reflete a estratégia das entidades em aproveitar as altas taxas de juros do país, que superam as metas de retorno estabelecidas.
A pesquisa Raio-X de Investimentos das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) 2026, realizada pela Itajubá em parceria com a Abrapp, aponta que a expectativa é de que essa tendência de concentração em renda fixa continue. Para os próximos 12 meses, 31% das entidades planejam aumentar a exposição a títulos públicos e 5% a crédito privado. Em um horizonte de médio prazo (36 meses), 36% pretendem elevar a alocação em títulos e 15% em crédito privado.
Atrativo dos Juros Elevados
O sócio fundador da Itajubá Investimentos, Carlos Garcia, coordenador da pesquisa, destaca que o setor está no "máximo histórico" de alocação em renda fixa, com poucas entidades considerando uma redução. A principal justificativa para essa concentração são as taxas de juros brasileiras, que há quatro anos permanecem acima de dois dígitos.
"Com o patamar de juros que temos atualmente, as fundações conseguem [um retorno] em torno de 8% acima da inflação e elas têm meta, em média, de 4,5% a 5%. Isso deixa as entidades numa condição mais cômoda e os gestores, por dever fiduciário, têm que aproveitar esse momento para enriquecer os seus participantes", explica João Carlos Ferreira, diretor de Investimentos da Abrapp.
Cautela e Predominância de Títulos Públicos
Tradicionalmente conservador, o setor de fundos de pensão demonstra uma postura ainda mais cautelosa dentro da própria renda fixa. Cerca de 90% dos recursos destinados a essa classe estão em títulos públicos, enquanto o crédito privado representa apenas 10%. Adicionalmente, 29% dos planos não possuem qualquer exposição a crédito privado.
Entre os títulos públicos, os mais buscados são as NTN-B, papéis do Tesouro Nacional indexados à inflação. Essa preferência reforça a busca por segurança e previsibilidade em um cenário de juros elevados.
Perspectivas de Diversificação e Investimento no Exterior
Apesar da forte concentração em renda fixa, os gestores indicam que uma eventual redução da taxa Selic seria o gatilho para uma maior diversificação das carteiras. "A partir do momento que esses juros estão caindo, os gestores precisam trabalhar mais para obter retornos mais significativos", afirma Ferreira.
A taxa Selic já acumula queda de 1,25 ponto percentual em 2026, com projeções indicando mais reduções. Nesse contexto, a pesquisa aponta para uma intenção de diversificação em outras classes. A renda variável aparece como prioridade de médio prazo, com 36% das entidades planejando aumentar sua alocação em 36 meses.
Outra área com forte intenção de aumento de alocação é o investimento no exterior. 50% das entidades pretendem ampliar sua exposição internacional nos próximos 12 meses, percentual que sobe para 53% em um horizonte de três anos. Essa estratégia é vista como uma forma de diversificar riscos e buscar retornos em mercados globais.
A gestão passiva via ETFs (Exchange Traded Funds) também tem ganhado espaço dentro da renda variável, com sua participação saltando de 15% em 2013 para 36% em 2026. Ferreira aponta a facilidade de operação, a redução de custos e a simplicidade na explicação dos resultados como fatores que atraem os fundos de pensão para essa modalidade.
É importante notar, contudo, que as projeções nem sempre se concretizam. Uma análise comparativa entre as intenções declaradas em 2023 e a alocação efetiva em 2026 mostrou que apenas duas classes (renda fixa e investimentos no exterior) seguiram a direção prevista, indicando a cautela e a dinâmica do mercado na tomada de decisões dos fundos de pensão.



