França enfrenta crise fiscal com dívida pública em alta e risco de rebaixamento

Destaques
- •Dívida pública francesa projetada para 122% do PIB, gerando tensões sociais e econômicas.
- •Economista alerta para risco de perda do grau de investimento e contágio para outros países.
- •Brasil pode sentir impacto com aumento do custo de capital global e restrição de crédito.
A França atravessa um período de forte tensão fiscal, com sua dívida pública projetada para atingir 122% do PIB, segundo estimativas oficiais. O cenário tem provocado manifestações populares e reacende comparações com a crise da dívida grega.
Em entrevista à CNN Money, o economista Márcio Sette, ex-diretor do Brasil no BID, descreveu a situação como uma "grande armadilha", onde o governo francês enfrenta a deterioração simultânea do cenário político e econômico. Medidas de austeridade, como o aumento da idade mínima para aposentadoria e cortes de gastos, são consideradas "totalmente impopulares" e intensificam os conflitos sociais.
A proximidade das eleições presidenciais em abril de 2027 também dificulta a adoção de reformas, pois os partidos de oposição têm menos incentivos para apoiar o governo. O crescimento econômico francês, em torno de 1% no ano passado, é considerado "bastante fraco e insuficiente" para conter o avanço da dívida.
Risco de rebaixamento e juros mais altos
Márcio Sette alertou que a deterioração das contas públicas pode comprometer a classificação de risco da França. A redução de impostos nos últimos anos contribuiu para agravar a situação fiscal. Ao comparar com países como Alemanha e Holanda, que possuem classificação AAA, o economista avalia que a França pode perder posições caso a crise se prolongue.
Os títulos públicos franceses já apresentam remuneração elevada, refletindo o aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores. A ampliação do diferencial de juros entre os papéis franceses e alemães sinaliza uma piora na percepção de risco da economia francesa. Embora um calote no curtíssimo prazo seja improvável, os investidores estão mais cautelosos e exigem juros maiores para financiar o governo.
Impactos para o Brasil e outros países
O economista considera improvável um contágio imediato da crise francesa para outros países, mas o risco permanece no horizonte. Ele lembrou que, durante a crise da dívida europeia de 2011, países como Grécia e Itália, que hoje possuem posições fiscais piores, melhoraram suas condições com programas de austeridade.
Para o Brasil, o principal risco seria uma elevação do custo de capital no mercado internacional, tornando o crédito mais caro. No entanto, Sette avalia que isso não afastaria diretamente os investimentos no país neste momento. Uma eventual crise de liquidez global poderia restringir o crédito para operações de exportação e afetar o comércio internacional de forma mais ampla, mas o problema central permanece concentrado na França.
Os possíveis efeitos sobre o Brasil dependerão da capacidade do país de demonstrar solidez econômica e fiscal nos próximos anos. A diretora de investimentos da Avenue, Marcella Rocha, reforça a importância de investidores diversificarem patrimônio no exterior devido ao crescimento da dívida brasileira, que já ultrapassa 80% do PIB e pode alcançar 100% em uma década, com velocidade superior a outros mercados emergentes.



