Famílias brasileiras: endividamento cai, mas inadimplência de ricos avança

Destaques
- •Parcela de famílias brasileiras que se consideram muito endividadas caiu para 16,8% em outubro, menor patamar desde abril.
- •Taxa de inadimplência cresceu 38,8% entre brasileiros com renda de 10 a 20 salários mínimos e 35,8% acima de 20 salários mínimos.
- •Especialistas apontam o crédito rotativo do cartão, com juros de até 451,7% ao ano, como principal vilão para o avanço da inadimplência entre os mais ricos.
A proporção de famílias brasileiras que se sentem muito endividadas atingiu 16,8% em outubro, o menor índice desde abril, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência, que mede famílias com dívidas em atraso, também mostrou melhora pelo segundo mês consecutivo, caindo de 29,6% para 29,3% no mesmo período.
Apesar da melhora geral, a pesquisa revela um cenário preocupante para as famílias de alta renda. Dados do Banco Central (BC) indicam que a taxa de inadimplência entre brasileiros que ganham de 10 a 20 salários mínimos cresceu 38,8% e entre aqueles com renda superior a 20 salários mínimos, 35,8%, na comparação com agosto do ano anterior. Embora ainda registrem taxas menores, foi entre os mais ricos que o indicador apresentou as maiores altas percentuais.
O crédito rotativo e juros elevados como vilões
Especialistas apontam o crédito rotativo do cartão de crédito como um dos principais fatores para o aumento da inadimplência entre os mais ricos. Essa modalidade, que permite o uso emergencial de crédito sem nova contratação, pode ter juros extremamente elevados. Dados preliminares do BC para setembro mostram que a taxa média de juros do rotativo do cartão alcançou 451,7% ao ano (15,29% ao mês).
Os juros do parcelamento da fatura, onde o cliente divide o saldo devido, atingiram 193% ao ano (9,37% ao mês). Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, explica que o cartão de crédito pode ajudar no orçamento se houver organização, mas a maior parte da população o utiliza para esticar o orçamento no curto prazo, resultando em juros exorbitantes.
Expansão do crédito e outros fatores de pressão
O cenário de juros elevados ocorre em meio à expansão do crédito às famílias. Segundo o BC, o estoque das operações de crédito para pessoas físicas cresceu 9,9% nos 12 meses encerrados em setembro. No rotativo do cartão, as concessões avançaram 12,6% em setembro, totalizando R$ 37,3 bilhões.
A mudança comportamental do brasileiro, com acesso mais fácil ao consumo pela internet e compras por impulso, também contribui para o aumento do uso do cartão. A inflação, com o IPCA-15 subindo 0,32% em outubro e acumulando 4,62% em 12 meses, é outro fator de pressão. Apesar da queda da taxa básica de juros (Selic), que está em 13,75% ao ano, os efeitos do crédito caro ainda pesam no orçamento.
Endividamento e inadimplência por faixa de renda
A pesquisa da CNC detalha o endividamento por faixas de renda. Entre as famílias que ganham até 3 salários mínimos, o percentual de inadimplentes subiu de 38,5% para 38,6% em outubro, sendo a única faixa onde o indicador avançou. Já entre aquelas com renda superior a 10 salários mínimos, a inadimplência caiu de 71,9% para 71,5%.
O percentual de famílias com algum tipo de dívida a vencer ficou em 81,6% em outubro. A CNC projeta estabilidade no endividamento geral até dezembro, com a inadimplência continuando em trajetória de queda.
Matérias originais
- Endividamento recua pelo 2º mês, mas ainda atinge 81,6% das famílias · g1.globo.com
- Nem os mais ricos escapam: inadimplência dispara quase 40% em um ano entre brasileiros de alta renda · g1.globo.com
- Endividamento fica em 81,6% em outubro · poder360.com.br
- CNC: Endividamento atinge 81,6% das famílias brasileiras em outubro · cnnbrasil.com.br



