Empreendedorismo molda apoio a Flávio Bolsonaro, aponta pesquisa

Destaques
- •Pesquisa indica que 43% dos brasileiros associam melhora de vida a ter negócio próprio, influenciando apoio a Flávio Bolsonaro.
- •Estudo do Dieese alerta que proposta de corte de gastos de Flávio Bolsonaro pode gerar 2,2 milhões de empregos a menos e R$ 203,1 bilhões em perdas no PIB.
- •A disputa política se divide entre quem busca estabilidade no emprego formal e quem almeja autonomia para empreender.
A forma como os brasileiros imaginam prosperar está influenciando a identificação política, com o desejo de abrir o próprio negócio ou trabalhar por conta própria se tornando um fator chave no apoio a Flávio Bolsonaro (PL). Uma pesquisa do Instituto Ideia, divulgada nesta semana, revela que 43% dos entrevistados associam melhorar de vida a ter um negócio próprio ou ser autônomo. Em contrapartida, 32% ainda ligam a ascensão econômica à conquista de um emprego formal com carteira assinada.
Essa divisão se reflete nas intenções de voto. Entre os brasileiros que desejam empreender, Flávio Bolsonaro detém 62% das preferências, enquanto Lula (PT) aparece com 34%. Já entre aqueles que valorizam o emprego formal, o presidente Lula lidera com 65%, ante 30% do senador.
Nova identidade política e a busca por liberdade
A pesquisadora Cila Schumann, do Instituto Ideia, explica que essa mudança reflete uma nova identidade política, impulsionada pelo crescimento do trabalho autônomo e informal. A possibilidade de controlar os próprios horários, buscar diferentes fontes de renda e não depender de um único empregador passou a ser vista como uma forma de ascensão econômica e realização pessoal.
Segundo Schumann, essa transformação ainda não foi plenamente compreendida pelo PT, cuja base histórica está ligada ao movimento sindical e à defesa do emprego formal. Ela observa que o governo Lula não conseguiu estabelecer uma comunicação consistente com esse público ao longo do mandato, mesmo com medidas recentes voltadas a microempreendedores individuais (MEIs).
A pesquisadora ressalta que a preferência política não se limita à renda. Na classe C, por exemplo, entre os que desejam abrir um negócio, Flávio Bolsonaro alcança 67% das intenções de voto, enquanto Lula registra 63% entre os da mesma faixa de renda que preferem o emprego formal.
Liberdade com proteção: o novo desafio
A preferência pelo trabalho autônomo, no entanto, não significa uma rejeição aos direitos sociais. Pesquisas qualitativas indicam que trabalhadores autônomos buscam preservar a liberdade de organizar suas rotinas, mas também esperam garantias mínimas em situações de doença, acidente ou perda de renda. "O trabalhador hoje quer estabilidade, mas ele quer liberdade", resumiu Cila Schumann.
O exemplo de entregadores por aplicativo ilustra essa dualidade: eles podem rejeitar a estrutura tradicional de um emprego com carteira assinada, mas ainda assim desejam proteção. O desafio para os próximos governos será encontrar um equilíbrio entre a autonomia e a segurança.
Essa análise ajuda a explicar por que a defesa de programas sociais e direitos trabalhistas não garante, por si só, a preferência de eleitores de menor renda por partidos de esquerda. A disputa política agora envolve diferentes ideias de prosperidade: para alguns, estabilidade em um emprego; para outros, autonomia para construir o próprio negócio.
Proposta de corte de gastos sob escrutínio
Em paralelo, uma proposta de corte de gastos de Flávio Bolsonaro, que visa economizar quase R$ 200 bilhões em 18 meses, enfrenta críticas com base em um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Segundo o técnico Leandro Horie, autor do estudo, os cortes podem levar à redução de 2,2 milhões de postos de trabalho e gerar perdas de R$ 68,7 bilhões em massa salarial.
O impacto no Produto Interno Bruto (PIB) é estimado em R$ 203,1 bilhões já em 2027. O estudo aponta que os cortes, que podem exigir uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), atingiriam principalmente despesas primárias, como aposentadorias, benefícios sociais e gastos com saúde. Cerca de 51% dos cortes recairiam sobre transferências de renda.
O Dieese alerta que a redução de gastos pode causar queda na arrecadação de impostos, com uma perda estimada de R$ 46,8 bilhões. A conclusão é que o "tesouraço" pode resultar em baixo crescimento econômico, aumento do desemprego e aprofundamento das desigualdades, sem resolver o problema fiscal. O estudo sugere que a solução para o desequilíbrio fiscal passaria por uma reforma tributária que tribute mais patrimônio e riqueza.


