Eleições presidenciais no Brasil podem impactar agenda ESG de empresas

Destaques
- •Lideranças e gestores avaliam que o resultado da eleição presidencial brasileira pode redefinir ou retroceder políticas ESG em empresas.
- •A influência governamental se dá por meio de regulações, incentivos econômicos e do ambiente político criado, podendo afetar agendas de clima, equidade racial e inclusão.
- •Especialistas divergem sobre o impacto exato, mas concordam que a continuidade de políticas e a ambição em sustentabilidade são cruciais para o desenvolvimento do país.
O resultado da eleição presidencial no Brasil, com a definição entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), pode impactar significativamente a agenda ESG (Environmental, Social and Governance) em empresas brasileiras a partir de 2027. Lideranças e gestores da área ouvidos pelo Estadão avaliam que o futuro da pauta no mercado está atrelado às decisões políticas e regulatórias do próximo governo.
Grandes empresas no país fortaleceram suas ações corporativas e assumiram compromissos públicos com a agenda ESG, especialmente no período pós-pandemia. No entanto, eventuais novas regulamentações e determinações em torno do tema podem redefinir ou mesmo retroceder o rumo dessas políticas, principalmente para as companhias mais sensíveis às agendas políticas.
Influência Regulatória e de Ambiente Político
A influência do governo federal na agenda ESG ocorre de forma direta e indireta. A forma direta se manifesta por meio de regulações e determinações que podem ser criadas pelo governo e pelo Congresso Nacional. A agenda de clima, por exemplo, é muito dependente dos movimentos na esfera federal.
Iniciativas que premiam empresas com compromissos ambientais e sociais incentivam a continuidade e a adesão de outras companhias. Por outro lado, um ambiente político que desvaloriza a agenda ambiental, considerando-a um entrave ao desenvolvimento ou à soberania nacional, pode gerar uma repercussão negativa no público e nas empresas.
"Se você tem um presidente da República, ministros e toda uma mobilização de governo que dão atenção e importância para essa agenda, você acaba criando no País uma série de recomendações, de ambiente político, de mensagens que valorizam a agenda", afirma Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.
Impacto nas Agendas de Inclusão e Equidade Racial
O resultado eleitoral também pode afetar as políticas de inclusão, equidade racial e desenvolvimento social. O governo federal tem capacidade de impactar o ambiente regulatório, as políticas públicas e os incentivos econômicos, definindo as prioridades de desenvolvimento do país.
Independentemente de quem seja eleito, existe o risco de descontinuidade ou retrocesso nessas agendas. A população negra, que representa aproximadamente 56% dos brasileiros, segundo o Censo 2022 do IBGE, pode ter seu acesso à educação, mercado de trabalho e oportunidades de desenvolvimento limitado se as desigualdades raciais não forem combatidas.
"Para as empresas, o desafio é não permitir que a agenda ESG, especialmente a equidade racial, fique vulnerável aos ciclos políticos", alerta Guibson Trindade, gerente executivo e cofundador da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial.
Perspectivas e Riscos para o Mercado
Especialistas apontam que o cenário internacional, apesar das incertezas geopolíticas, mostra um fortalecimento da justificativa empresarial para a sustentabilidade. Um estudo do Pacto Global da ONU e da Accenture revelou que 88% dos CEOs consultados consideram a justificativa empresarial para a sustentabilidade mais forte do que há cinco anos.
Empresas com boa governança tendem a preservar seus compromissos ESG, independentemente de quem esteja no poder. No entanto, a falta de propostas claras e de longo prazo para a sustentabilidade, inclusão e governança por parte dos candidatos representa um risco de retrocesso.
"O Brasil já possui avanços institucionais relevantes, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima, o Eco Invest Brasil, a Taxonomia Sustentável Brasileira e o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. São instrumentos que precisam de continuidade, aprimoramento e segurança jurídica, independentemente do governo", ressalta Jandaraci Araujo, cofundadora do Instituto Conselheira 101.
O papel do governo, exercido diretamente ou por meio de estruturas como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), pode acelerar ou frear avanços. Nos EUA, o tema ESG tem enfrentado uma espécie de criminalização. A continuidade de políticas públicas e marcos como a política nacional de empresas e direitos humanos são cruciais.
Empresas que já incorporaram a sustentabilidade à sua estratégia de negócios, entendendo a relação entre sustentabilidade, gestão de riscos, inovação e competitividade, têm mais razões para manter seus compromissos. O risco é que compromissos construídos ao longo de anos sejam enfraquecidos por circunstâncias políticas de curto prazo, exigindo das empresas a demonstração de consistência em suas práticas.



