El Niño afeta plantio de soja no RS e eleva risco para safra 2026/27

Destaques
- •Chuvas e baixas temperaturas atrasam o plantio de soja no Rio Grande do Sul para a safra 2026/27, com semeadura em 3% da área, abaixo da média histórica.
- •O El Niño, com previsão de ser forte a muito forte até março de 2027, intensifica o risco climático regional, com excesso de chuva no Sul e falta no Centro-Norte do país.
- •Produtores e financiadores são alertados para a necessidade de gerenciar riscos climáticos de forma regionalizada, pois o colchão público de seguro rural será menor.
O plantio de soja no Rio Grande do Sul para a safra 2026/27 está avançando lentamente devido às chuvas frequentes e às baixas temperaturas, com apenas 3% da área total projetada semeada até o momento. Este índice está abaixo da média histórica para a época, que é de 5%, e iguala o ritmo do ano passado, segundo a Emater. O órgão de assistência técnica vinculado ao governo gaúcho atribui o atraso à elevada umidade do solo, que restringiu as janelas de plantio, e às condições climáticas adversas que retardaram o desenvolvimento das primeiras lavouras.
Impacto do El Niño e riscos climáticos
O fenômeno El Niño, previsto para ser forte a muito forte ao menos até março de 2027, intensifica os riscos climáticos de forma contrastante pelo país. No Sul, como no Paraná e Santa Catarina, a análise da Agrosmart aponta chuva acima do normal, o que já causou atraso na colheita do trigo, maior incidência de doenças e prejudicou a semeadura de soja e arroz. Em áreas já semeadas, houve prejuízo à emergência das plantas.
Em contrapartida, no Matopiba (Maranhão, Piauí, Tocantins) e no norte de Mato Grosso, a previsão é de falta de chuva e calor, o que pode levar à falha de estande e necessidade de replantio. A janela para o plantio da segunda safra de milho também fica comprometida pelo atraso da soja.
Consequências para a safra e o mercado
O Rio Grande do Sul tem potencial para ser o quarto maior produtor de soja do Brasil na temporada 2026/27, com uma safra estimada em 20,2 milhões de toneladas, segundo a Conab. No entanto, o clima adverso também afeta o milho, com plantio em ritmo desigual, e o trigo, cuja safra está estimada em 2,16 milhões de toneladas, uma queda de 37,48% em relação ao ciclo anterior, apesar de uma ligeira elevação na projeção de produtividade por hectare.
A ciência climática alerta que a previsão precisa ser acompanhada mês a mês, pois eventos como o El Niño podem ter padrões alterados. A falta de chuva no Centro-Norte e o excesso no Sul reforçam o desenho de risco para a safra de verão.
Gestão de risco e oportunidades no setor
A especialista Mariana Vasconcelos, CEO da Agrosmart, ressalta que a safra brasileira não deve ser vista como um único balanço, mas sim com riscos medidos e precificados produtor por produtor e estado por estado. Ela aponta que instituições financeiras que utilizarem dados climáticos para ajustar prazos, exigir manejo de risco e oferecer produtos adequados a cada região podem transformar o ano de maior risco em fidelização de clientes.
O cenário de maior risco climático coincide com um menor suporte público. O orçamento para subvenção ao seguro rural em 2027 depende de aprovação de crédito suplementar pelo Congresso, o que pode significar menos produtores segurados. A recomendação é que produtores escalonem o plantio, escolham cultivares mais tolerantes e revisem seguros antes de semear, utilizando a informação climática como argumento comercial e de negociação.



