Economistas alertam: indefinição fiscal e gastos públicos ameaçam juros e câmbio no Brasil

Destaques
- •Economistas apontam a incerteza sobre o novo plano fiscal como o principal fator de instabilidade nos mercados brasileiros.
- •A falta de clareza no controle de gastos públicos eleva projeções de inflação e dificulta a queda da taxa Selic, segundo especialistas.
- •O novo governo Lula precisa apresentar um plano fiscal crível para reverter o mau humor do mercado e atrair investimentos.
A instabilidade observada nos mercados financeiros após as eleições presidenciais é vista por economistas como um reflexo da indefinição sobre o plano fiscal do novo governo. A falta de clareza no controle do crescimento do gasto público é apontada como o principal fator que eleva o dólar, derruba a bolsa e aumenta a curva de juros no Brasil no curto prazo.
Segundo Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG, a simples sinalização de um plano de voo claro focado no controle das despesas públicas já seria suficiente para gerar uma melhora significativa nos mercados. Ele ressaltou que, sem essa definição, combinada ao cenário de petróleo em alta e dólar valorizado, analistas projetam inflação mais elevada, o que dificulta a continuidade do ciclo de corte de juros pelo Banco Central.
Plano fiscal como chave para a melhora
Mansueto Almeida destacou que o mercado acompanhará se as medidas anunciadas serão cumpridas. Ele acrescentou que o Brasil possui bons fundamentos, como ser exportador líquido de petróleo e o bom desempenho do agronegócio, mas o excesso de gasto público mantém os juros em patamares elevados. A solução, segundo ele, não é cortar despesas, mas controlar seu crescimento, o que historicamente leva à queda da inflação e dos juros.
Daniel Teles, especialista da Valor Investimentos, considera a queda recente da Bolsa brasileira, que perdeu cerca de R$ 873 bilhões em valor de mercado, uma reação exagerada. Ele atribui o movimento à especulação em torno do resultado eleitoral e à saída de investidores institucionais preocupados com o risco fiscal. No entanto, ressalta que as empresas não perderam sua capacidade de gerar receita e que o Ibovespa, negociando a cerca de oito vezes o preço pelo lucro, está abaixo de sua média histórica.
Perspectivas desfavoráveis para o restante do ano
Daniel Teles não vê perspectivas de melhora para o mercado ainda em 2026, citando a trajetória dos juros futuros, a ausência de sinalizações claras sobre responsabilidade fiscal e o volume de dívida contratada durante o período eleitoral. Ele também aponta que grandes bancos já revisam projeções para a Selic, antecipando que a próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) pode não trazer o corte de juros esperado. O volume de crédito subsidiado também tenderia a levar o Banco Central a interromper a queda dos juros.
A saída de capital pressionou o câmbio, com o dólar saltando para a casa dos R$ 5,30, o que, segundo Teles, pressiona ainda mais a inflação. Setores como varejo e construção civil são os mais impactados pelo cenário de juros elevados, por dependerem fortemente do mercado de crédito. O especialista prevê mais quatro anos com a Selic em patamar superior ao histórico.
O que o novo governo precisa fazer
José Roberto Mendonça de Barros, sócio-fundador da MB Associados, afirma que a largada do novo governo Lula será decisiva. Ele defende que o presidente precisa apresentar um plano capaz de reverter o mau humor do mercado financeiro, com uma trajetória sustentável da dívida pública. Mendonça de Barros sugere a escolha de um líder qualificado para a equipe econômica, com autonomia para implementar um programa fiscal. Ele alerta que, sem um ajuste fiscal firme, os juros não baixarão e a dívida continuará crescendo, o que pode levar a uma situação semelhante ao governo Dilma Rousseff.
A reforma tributária é vista como indispensável para reduzir custos das empresas e aumentar a eficiência da economia. No entanto, o ajuste fiscal deve focar mais na despesa do que na receita, com revisão de cadastros e regras de precatórios. A participação dos outros Poderes, como o Congresso e o Judiciário, no ajuste fiscal também é considerada fundamental para a sustentabilidade das contas públicas.


