Clara Charf: Vida e Legado de Militante Comunista e Feminista

Destaques
- •Clara Charf, figura histórica da esquerda brasileira, faleceu aos 100 anos, deixando um legado de luta pela democracia e pelos direitos das mulheres.
- •Sua trajetória incluiu a militância ao lado de Carlos Marighella, o exílio em Cuba e a fundação do Partido dos Trabalhadores e da Associação Mulheres pela Paz.
- •A vida e a luta de Clara Charf se confundem com a história da resistência democrática no Brasil, inspirando gerações de ativistas.
Aos 100 anos, faleceu Clara Charf, militante histórica da esquerda brasileira e figura proeminente na luta pela democracia e pelos direitos das mulheres. Nascida em Maceió em 1925, filha de imigrantes judeus russos, Clara dedicou sua vida à causa comunista e feminista, deixando um legado que se confunde com a própria história da resistência democrática no Brasil.
Sua trajetória política começou cedo, aos 16 anos, e a filiação ao Partido Comunista do Brasil (PCB) aos 21 anos marcou o início de uma vida dedicada à militância. No Rio de Janeiro, trabalhou como aeromoça para o partido e conheceu Carlos Marighella, com quem viveu e atuou politicamente. Juntos, enfrentaram a clandestinidade e a repressão, especialmente após o golpe militar de 1964.
Da Clandestinidade ao Exílio
A vida de Clara Charf foi marcada por desafios e perseguições. Em 1948, mudou-se com Marighella para São Paulo, onde coordenou o Movimento Feminino Paulista. A clandestinidade impôs mudanças de nome e endereço, e em 1952, Clara chegou a ser presa em Campinas sob acusação de espionagem internacional, sendo liberada após meses de detenção.
Com a intensificação da repressão após o golpe de 1964, Clara e Marighella voltaram à clandestinidade. Ela se somou à Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das organizações mais combativas contra o regime militar. Após o assassinato de Marighella em 1969, Clara se exilou em Cuba, onde viveu por quase dez anos, trabalhando como tradutora e voluntária.
Retorno ao Brasil e Luta Feminista
A Lei da Anistia de 1979 permitiu o retorno de Clara ao Brasil. Ao chegar, ela foi fundamental na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se candidatou a deputada estadual. Sua atuação se estendeu à Secretaria Nacional de Mulheres e à Secretaria de Relações Internacionais do PT, além de integrar o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
Em 1996, Clara Charf foi peça chave no reconhecimento da responsabilidade do Estado na morte de Carlos Marighella. Em 2003, fundou e presidiu a Associação Mulheres pela Paz, dedicada ao combate à violência de gênero e à promoção da participação feminina na política. Em 2005, coordenou no Brasil o movimento internacional "Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo", que indicou mil mulheres ao Prêmio Nobel da Paz.
Reconhecimento e Legado
Ao longo de sua vida, Clara Charf recebeu diversas homenagens, incluindo o Diploma Bertha Lutz (2005), o Prêmio Rose Marie Muraro (2014) e o título de Cidadã Paulistana (2019). Sua história foi retratada no filme "Marighella" (2019), de Wagner Moura, onde foi interpretada por Adriana Esteves.
Diagnosticada com Alzheimer em seus últimos anos, Clara Charf faleceu em 3 de novembro de 2025, aos 100 anos. Sua morte foi lamentada por figuras como Lula, Frei Betto e diversas organizações de direitos humanos, que ressaltaram a importância de sua vida e luta para a história democrática do Brasil.
Matérias originais
- Clara Charf: um século de resistência e luta popular · operamundi.uol.com.br



