China domina mercado automotivo da Tailândia e expõe fragilidades de montadoras japonesas

Destaques
- •Marcas chinesas controlam 85% do mercado de veículos elétricos na Tailândia, antes dominado por montadoras japonesas.
- •A rápida ascensão das chinesas levou à falência de fornecedores locais e à perda de cerca de 700 mil empregos.
- •Governo tailandês tenta conter importações e incentivar produção local, mas enfrenta desafios para equilibrar desenvolvimento e empregos.
A Tailândia, outrora conhecida como a “Detroit do Oriente” pelo domínio de montadoras japonesas, vive uma profunda transformação em seu polo automotivo de Rayong. Nos últimos cinco anos, a ascensão meteórica das fabricantes chinesas de veículos elétricos (VEs) mudou o cenário, com marcas como BYD e Great Wall Motor adquirindo fábricas de empresas como General Motors e Suzuki. Atualmente, as marcas chinesas detêm cerca de 85% do mercado de VEs tailandês, uma fatia que era praticamente inexistente há quatro anos.
A lenta adaptação das montadoras japonesas à nova tecnologia resultou na redução drástica da produção e até no fechamento de fábricas de marcas como Subaru e Suzuki. O impacto se estendeu à cadeia de fornecedores locais de autopeças, vinculada às marcas japonesas, levando várias empresas à falência e colocando em risco cerca de 700 mil empregos no setor.
O alerta para a indústria global
O caso tailandês serve como um alerta sobre os efeitos colaterais da abertura de mercado para os VEs chineses. Enquanto a União Europeia e os Estados Unidos buscam formas de conter o avanço chinês, a Tailândia tenta reverter o quadro. O primeiro-ministro Anutin Charnvirakul viajou ao Japão para acalmar executivos e determinou a revisão de regras que criavam concorrência desleal.
Apesar dos esforços, o ritmo da invasão chinesa preocupa economistas. Nos primeiros sete meses de 2026, dois terços dos VEs vendidos no país foram importados, a maioria da China. O apelo dos modelos chineses é inegável, com preços agressivos e tecnologia embarcada.
A Tailândia tenta conter a onda de importados
Para frear a entrada de veículos importados, o governo tailandên implementou uma alíquota de impostos em três níveis, penalizando as marcas que apenas importam e beneficiando as que produzem localmente com peças tailandesas. No entanto, especialistas como Ruth Banomyong, professor da Universidade Thammasat, apontam que as montadoras chinesas operam em um “ecossistema fechado”, limitando a entrada de fornecedores locais e concentrando a tecnologia na China. Estudos indicam que até 300 mil empregos podem desaparecer nos próximos cinco anos.
A situação trabalhista também é crítica. O presidente do Congresso dos Trabalhadores Automotivos da Tailândia, Tossophol Kunsri, relata que fabricantes chinesas contratam temporariamente, sem pagamento de rescisão, e rejeitam sindicatos. Ele questiona se o país continuará sendo uma base fabril ou um “pátio de descarte”.
A transição que deixou trabalhadores para trás
A política do governo tailandên de incentivar os VEs, iniciada em 2022 com a meta de 30% de carros de emissão zero até 2030, incluiu redução de impostos e subsídios, além de um acordo de livre comércio com a China que zerou alíquotas de importação. Essa combinação facilitou a entrada de marcas chinesas como Changan, GAC Aion, Neta e Chery.
A trabalhadora Netsana Sakulpolpanya, que atuava em uma fábrica de autopeças para a Toyota, viu os pedidos despencarem e a empresa falir em 2024, deixando quase 900 trabalhadores sem indenização. Aos 49 anos, ela hoje ganha o equivalente a US$ 11 por dia em um supermercado, pois as fábricas chinesas só contratam jovens. "Culpo o governo por não ter gerido essa transição de forma justa", desabafa.
BYD sob observação e o veredito do consumidor
A fábrica da BYD em Rayong, inaugurada em 2024, opera 24 horas por dia com a meta de 4.000 carros diários, exportando para vários mercados. No entanto, reguladores nos EUA e Europa desconfiam que a planta funcione apenas como montagem final para burlar tarifas. O diretor-geral da BYD na Tailândia, Benson Ke, desconversa sobre a origem das peças, mas afirma que a empresa investiu mais de US$ 1 bilhão e utiliza componentes locais. Apesar disso, robôs da alemã Kuka (controlada pela chinesa Midea) e caixas com endereços da China evidenciam os vínculos com a matriz.
Para o consumidor tailandên, a disputa industrial se traduz em preços mais baixos e tecnologia avançada. O apresentador automotivo Nithi Thuamprathom, com 1,2 milhão de inscritos no YouTube, afirma que a “era em que as montadoras japonesas nadavam em dinheiro sem esforço na Tailândia acabou”, e que agora elas terão que aprender a competir de verdade.



