Brasil projeta safra recorde de grãos em 2026/27, mas com alertas

Destaques
- •Conab estima produção de 367,1 milhões de toneladas de grãos, um aumento de 1,4% em relação à safra anterior.
- •Soja e milho devem atingir novos máximos, mas expansão da área de soja é a menor em duas décadas, indicando limites econômicos.
- •Cultura do sorgo ganha destaque e pode colocar o Brasil na liderança mundial, enquanto arroz e trigo mostram preocupação.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta para o ciclo 2026/27 uma safra recorde de grãos no Brasil, estimada em 367,1 milhões de toneladas. Este volume representa um crescimento de 1,4% sobre a temporada anterior e reforça a capacidade da agricultura brasileira em responder à demanda mundial com a incorporação de tecnologia. Soja e milho devem liderar a produção, com estimativas de 181,6 milhões de toneladas e 148 milhões de toneladas, respectivamente, respondendo por quase 90% do total.
As projeções da Conab divergem em alguns pontos das estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), especialmente para o milho, indicando incertezas sobre área, produtividade e condições climáticas. Um sinal de cautela é a menor expansão percentual da área cultivada com soja em duas décadas, de apenas 1,4%, refletindo margens menores, crédito caro e insumos valorizados que tornam a decisão de expandir a área menos automática.
Milho e Sorgo em Ascensão, Arroz e Trigo em Alerta
Em contrapartida, o milho apresenta uma trajetória diferente, com produção prevista em crescimento de 2,4% e área cultivada de 4,9%. A primeira safra de milho pode registrar expansão de 10,7%, impulsionada por preços mais firmes, exportações, demanda da pecuária e o crescimento do etanol de milho, que já representa 27,2% do etanol produzido no país. No entanto, a dependência de fertilizantes nitrogenados expõe o milho a riscos relacionados à crise energética e navegação.
O sorgo se consolida como uma alternativa estratégica, com produção projetada de 8 milhões de toneladas em 2026/27, o que pode posicionar o Brasil na liderança mundial. Em contraste, culturas ligadas ao consumo doméstico inspiram preocupação. A produção de arroz deve ficar próxima de 10,7 milhões de toneladas, com estoques baixos, e o trigo projeta queda de 27%, aumentando a dependência de importações.
Segurança Alimentar Vai Além do Volume Total
A disparidade entre o avanço de algumas culturas e a redução em outras desmonta a ideia de que uma safra recorde garante segurança alimentar por si só. A segurança alimentar depende da composição da safra, renda das famílias, estoques, logística e disponibilidade dos produtos na mesa do consumidor. A política agrícola deve ir além do recorde agregado, focando em pesquisa, desenvolvimento, seguro rural, irrigação, armazenagem e crédito para cadeias como arroz, trigo e feijão.
A agricultura brasileira continua sendo um pilar da economia, mas o crescimento está mais lento, caro e concentrado. O futuro salto dependerá de produtividade, diversificação, eficiência no uso de insumos, adaptação climática e agregação de valor. Celebrar a safra recorde é importante, mas é crucial não se hipnotizar pelo número, buscando transformar a abundância produtiva em renda, competitividade e segurança alimentar para toda a população.
Matérias originais
- O recorde que esconde vulnerabilidades · estadao.com.br
- Açúcar deve perder força em 2027? BTG vê preços recuando a ‘patamar de equilíbrio’ · moneytimes.com.br



