Brasil aumenta investimento em ciência e tecnologia em 60% desde 2020

Destaques
- •Investimentos governamentais em ciência e tecnologia (C&T) e em pesquisa e desenvolvimento (P&D) cresceram cerca de 60% e 66%, respectivamente, entre 2020 e 2024.
- •O aumento no financiamento, especialmente via Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), é crucial para a produção científica e para responder a emergências de saúde, como a pandemia de Covid-19.
- •Apesar do crescimento, o investimento brasileiro em C&T ainda é inferior à média de países desenvolvidos da OCDE, e desafios como a continuidade do financiamento e a absorção de pesquisadores pelo setor privado persistem.
Os investimentos governamentais em ciência e tecnologia (C&T) no Brasil alcançaram R$ 88,9 bilhões em 2024, enquanto os gastos com pesquisa e desenvolvimento (P&D) somaram R$ 72,9 bilhões. Esses valores representam um crescimento de aproximadamente 60% e 66%, respectivamente, em comparação com 2020, ano de início da pandemia de Covid-19, quando os gastos foram de R$ 55,6 bilhões em C&T e R$ 44 bilhões em P&D.
O aumento no financiamento é visto como fundamental para a capacidade do país de responder a emergências sanitárias, desenvolver vacinas e tratamentos, além de fortalecer a vigilância epidemiológica e a produção de diagnósticos. A pesquisadora Jaqueline Goes, da USP, destacou a importância do sequenciamento genético do coronavírus em 48 horas no início da pandemia, um feito que permitiu o avanço na produção de vacinas e medicamentos.
Crescimento do financiamento e fontes de recursos
Parte significativa desse crescimento se deve ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), cujo orçamento passou de cerca de R$ 900 milhões em 2020 para R$ 6,4 bilhões em 2024, um aumento de aproximadamente 611%. O FNDCT é considerado o principal recurso federal para o financiamento de pesquisa.
Além do FNDCT, o financiamento da ciência no Brasil conta com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Estados, por meio de suas fundações de amparo à pesquisa como a FAPESP em São Paulo, e ministérios também contribuem, assim como empresas privadas.
A importância do investimento contínuo e comparativo internacional
Pesquisadores ressaltam que o investimento em ciência precisa ser contínuo para gerar resultados consistentes. O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, exemplifica com o desenvolvimento da vacina contra a dengue, que levou décadas de pesquisa. Ele alerta que a interrupção de investimentos pode levar à perda de anos de trabalho e conhecimento acumulado.
Apesar do avanço recente, o investimento brasileiro em ciência equivale a cerca de 1,2% do PIB, enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de aproximadamente 2,7%. Países como Estados Unidos (3,44%) e Coreia do Sul (mais de 5%) investem percentuais significativamente maiores. A meta defendida pela comunidade científica é que o Brasil invista 2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento.
Desafios e contribuições da ciência brasileira
Apesar de o Brasil ocupar uma posição de destaque na produção científica mundial, com publicações entre a 14ª e 15ª posição, desafios persistem. A falta de bolsas para todos os pesquisadores, a perda de bolsas de mestrado e doutorado em universidades federais e a limitada absorção de cientistas pelo setor privado são obstáculos importantes.
A pesquisa científica brasileira tem demonstrado impacto direto em políticas públicas, como a incorporação de tecnologias no Sistema Único de Saúde (SUS). Um mapeamento identificou que cerca de 10% dos artigos científicos citados em protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas do SUS tinham pelo menos um autor vinculado a uma instituição brasileira. A transformação da ciência em política de Estado, com investimentos e metas que transcendam mudanças de governo, é vista como essencial para o desenvolvimento do país.
Matérias originais
- Por que o Brasil precisa investir em ciência? · drauziovarella.uol.com.br



