Brasil aposta em cacau sustentável e de qualidade para conquistar mercado global

Destaques
- •Produtores brasileiros buscam valorizar o cacau com indicação geográfica e cultivo sustentável para expandir exportações.
- •O setor reivindica maior participação nos lucros da cadeia produtiva do chocolate, onde o produtor recebe apenas 7% do valor da barra.
- •Mudanças climáticas e aumento de temperaturas ameaçam culturas de cacau, podendo elevar o preço e tornar o chocolate um produto de luxo novamente.
O Brasil, berço do cacau, busca consolidar sua posição no mercado internacional com foco na qualidade e na sustentabilidade de sua produção. A cadeia produtiva, que vai do pé de cacau à barra de chocolate, tem no país um domínio crescente, com destaque para o cultivo em sistemas como a cabruca, que planta o fruto sob a cobertura da mata nativa, ajudando a preservar a floresta.
Segundo André Luiz Carvalho Scampini, secretário-executivo da Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (ACAU), o cacau é originário da Amazônia brasileira e se desenvolve melhor à sombra de árvores maiores, característica intrínseca ao sistema de cabruca. Esse método, que antecede a legislação ambiental, permitiu a preservação de áreas de Mata Atlântica no sul da Bahia e no Espírito Santo, onde o cacau é cultivado.
Cacau com Indicação Geográfica e Qualidade Superior
O estado do Espírito Santo tem investido na valorização da origem do produto, com a cidade de Linhares recebendo a primeira indicação geográfica brasileira para amêndoas de cacau, a Cacau Linhares. Essa indicação, similar a de vinhos como champanhe ou borgonha, reconhece as qualidades únicas conferidas pelo terroir local – microclima, qualidade da terra e da água –, resultando em amêndoas mais aromáticas, frutadas, com sabor suave e maior concentração de manteiga de cacau.
A estratégia atual é apresentar essa qualidade superior a novos mercados, incluindo Europa e Ásia, que são vistos como promissores. A participação em eventos como o Salão do Chocolate em Paris, com produtores do Pará, Bahia e Espírito Santo, visa a evoluir a produção e agilizar a comercialização de amêndoas e subprodutos.
Remuneração Justa e Desafios Climáticos
Apesar do potencial de crescimento, o setor enfrenta a reivindicação por uma remuneração mais justa. Marco Lessa, coordenador da missão brasileira em Paris, defende que o produtor de cacau, o protagonista da cadeia, receba uma participação maior nos lucros. Atualmente, apenas cerca de 7% do preço de uma barra de chocolate é destinado ao produtor, um valor considerado insuficiente.
O futuro do setor também é ameaçado pelas mudanças climáticas. O aumento das temperaturas já afeta regiões produtoras, colocando em risco variedades de cacau cultivadas há mais de dois séculos. Essa vulnerabilidade pode levar a uma escassez e, consequentemente, a um aumento de preços, com o risco de o chocolate voltar a ser um produto de luxo, como foi historicamente até os anos 1940 e 1950.
Recepção Internacional e o Futuro da Produção
Visitantes do Salão do Chocolate em Paris elogiaram a qualidade do chocolate brasileiro, destacando sua suavidade, corpo e notas que remetem à floresta, além da dedicação na produção. A sustentabilidade e a ética na produção, com condições ambientalmente aceitáveis, foram pontos ressaltados.
A agrofloresta é apontada como a solução ideal para o futuro da produção de cacau, combinando preservação ambiental com qualidade do produto. O chocolate brasileiro, com sua origem na Amazônia e Mata Atlântica, aposta nesses atributos para conquistar consumidores globais.



