Ambev vê "reset" no consumo de cerveja no Brasil e aposta em novidades

Destaques
- •Ambev interpreta queda no consumo de cerveja em 2025 como volta à normalidade após dois anos atípicos, não como mudança estrutural.
- •A empresa aposta em cervejas premium, sem álcool e com baixo teor calórico para impulsionar o mercado, com vendas de Stella Pure Gold e Michelob Ultra triplicando e mais que quintuplicando, respectivamente.
- •A companhia anunciou um novo programa de recompra de ações no valor de R$ 2,9 bilhões, sinalizando confiança na estratégia.
A Ambev interpreta a queda no consumo de cerveja no Brasil em 2025 como um "reset" e uma volta à normalidade, após dois anos excepcionalmente favoráveis ao setor, e não como uma mudança estrutural nos hábitos dos consumidores. Segundo Guilherme Fleury, CFO da companhia, a retração observada no ano passado, estimada entre 4,5% e 5%, foi influenciada pela normalização de fatores cíclicos como renda disponível e temperatura.
Em 2023 e 2024, o cenário foi impulsionado por um crescimento econômico acima da média, avanço no consumo das famílias e temperaturas elevadas, com o El Niño contribuindo para um período atípico. Fleury afirma que o consumo das famílias crescia a um ritmo próximo de três vezes o observado em 2026. A Ambev considera 2025 como o ano de referência para avaliar a evolução recente do mercado, e não os anos anteriores.
Desempenho e Participação de Mercado
A leitura da Ambev sobre a desaceleração, vista como cíclica, contrasta com a percepção de alguns analistas. No terceiro trimestre, a indústria brasileira de cerveja cresceu cerca de 4%, segundo dados da Nielsen, mas os volumes da Ambev avançaram apenas 0,5%, abaixo do esperado pelo mercado. O Citi destacou que a recuperação da indústria não se traduziu em crescimento equivalente para a Ambev.
A concorrente Heineken registrou crescimento de volume na faixa de um dígito médio no mesmo período. No entanto, Fleury argumenta que a Copa do Mundo influenciou o calendário de vendas e a captura de dados pela Nielsen. Ao combinar o segundo e terceiro trimestres, a indústria cresceu 1,3%, enquanto os volumes da Ambev avançaram 2,7%, indicando, segundo a empresa, ganho de participação de mercado.
Mudança no Perfil da Demanda
Os números do terceiro trimestre revelam uma transformação no perfil da demanda por cerveja. Os volumes das cervejas premium da Ambev cresceram na casa dos "10% altos", enquanto os rótulos tradicionais (mainstream) registraram queda de um dígito médio. O segmento de cervejas sem álcool apresentou um avanço expressivo, com vendas na casa dos 40%.
A Stella Pure Gold, versão com menos calorias, quase triplicou de volume, e a Michelob Ultra cresceu mais de cinco vezes. Esses resultados, embora partindo de bases menores, apontam para oportunidades de expansão em segmentos que atendem a novas preferências dos consumidores, como opções mais equilibradas e com menor teor calórico.
Novas Apostas e Resultados Financeiros
A Ambev busca acompanhar as novas preferências com o aumento da oferta de cervejas sem álcool, versões com menor teor calórico e até produtos inovadores, como a Spaten Pro, lançada com 10 gramas de proteína e 92 calorias. Fleury vê essa transformação como uma oportunidade para conquistar consumidores e ampliar ocasiões de consumo, em vez de apenas substituir o consumo tradicional.
Apesar das ressalvas de analistas, como a XP, que indicou "a parte fácil ficou para trás", e a Ativa Investimentos, que citou o ambiente macroeconômico adverso, a Ambev mantém confiança na estratégia. No terceiro trimestre, a receita líquida consolidada cresceu 7,6% e o Ebitda ajustado avançou 8,9%, para R$ 7,27 bilhões. O lucro líquido ajustado aumentou 14,3%, chegando a R$ 4,39 bilhões. Como sinal de confiança, a Ambev anunciou um novo programa de recompra de até 190 milhões de ações, equivalentes a aproximadamente R$ 2,9 bilhões.



