El Salvador envia 1.700 soldados ao Haiti em operação não autorizada

Destaques
- •El Salvador enviou 1.700 soldados ao Haiti sem acordo bilateral ou autorização internacional, alegando resgate de compatriotas sequestrados.
- •A operação, que começou com o sequestro de quatro salvadorenhos, evoluiu para uma presença militar que pode se tornar de longo prazo, gerando preocupações sobre soberania e segurança jurídica.
- •Organizações haitianas e a população local expressam preocupação com a falta de transparência e o impacto da intervenção na vida civil, enquanto o governo haitiano busca apoio externo diante da crise.
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, autorizou o desembarque de 1.700 soldados, armas e munições em território haitiano, em uma operação que se assemelha a uma ocupação militar de longo prazo. A ação, iniciada em 18 de outubro, foi justificada por Bukele como uma resposta ao sequestro de quatro salvadorenhos pela gangue local na região metropolitana de Porto Príncipe. Sem acordo bilateral ou autorização de organizações internacionais, a iniciativa levanta sérias dúvidas sobre seu quadro legal e a soberania do Haiti.
O envio de tropas começou em 21 de outubro, com múltiplos voos diários pousando no aeroporto da capital, que estava fechado há dois anos devido à insegurança. Apenas mais de uma semana depois, em 28 de outubro, o primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, confirmou um diálogo oficial com Bukele para “reforçar a coordenação bilateral e a cooperação operacional no âmbito da Força de Repressão das Gangues (FRG)”, missão internacional sob o guarda-chuva das Nações Unidas. Bukele, por sua vez, declarou a “disposição de El Salvador em continuar apoiando o trabalho de segurança contra as gangues”, indicando que a missão pode não ter um prazo definido para retorno.
Operação de resgate se torna ocupação militar
O que se iniciou como uma operação emergencial de resgate, com apoio logístico dos Estados Unidos, tem se transformado em uma presença militar contínua no Haiti. O contingente salvadorenho já conta com 1.700 soldados em solo haitiano, com previsão de expansão para mais de 2 mil homens. No entanto, o comando, o quadro legal e a duração da missão permanecem incertos, pois o envio foi uma decisão unilateral de Bukele, não vinculada diretamente ao mandato da FRG, que expira em março de 2027.
O jornalista e estudante de direito haitiano Moïse François destaca a falta de transparência jurídica. “Uma intervenção como esta precisa ter um quadro legal”, afirma, ressaltando a necessidade de justificar a presença dos soldados com um acordo bilateral. Ele também expressa preocupação com a vulnerabilidade da população local, que não tem garantias sobre como esses novos contingentes operarão e se obedecerão às leis haitianas ou às resoluções da ONU.
Reações e o abandono do Estado haitiano
Diversas organizações haitianas denunciaram a intervenção como uma violação de soberania. O partido de esquerda Kontrapèpla manifestou indignação, lembrando que a proteção da população é responsabilidade exclusiva do Estado soberano. A situação na baixada de “Cul-de-Sac”, onde ocorreu o sequestro, é de recorrentes tiroteios e explosões, com pouca informação oficial sobre o andamento das operações. A população está refém, com acesso restrito a água, comida e trabalho, e impedida de fugir por gangues.
A Médicos Sem Fronteiras alertou para o agravamento da violência em bairros densamente povoados, com vítimas, incluindo mulheres e crianças, feridas por tiros e explosões. Apesar do desespero, parte da população haitiana acolhe a intervenção salvadorenha com certo alívio, buscando qualquer ajuda para sair da crise. Contudo, o jornalista Moïse François ressalta que isso não diminui o valor da soberania nacional e o desejo de que o país seja dirigido e protegido por haitianos.
O governo haitiano, liderado pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, nomeado em novembro de 2024, tem falhado em restabelecer a segurança e organizar eleições, previstas para julho de 2027. A situação de insegurança piora, e o governo tem buscado ajuda externa, incluindo um contrato de 10 anos com a empresa privada de mercenários Vectus Global. A aprovação tácita à chegada dos militares salvadorenhos é vista como mais um passo na entrega da soberania do país.
Matérias originais
- Com aval dos EUA, Bukele envia 2 mil soldados ao Haiti e gera temor de ocupação militar · operamundi.uol.com.br



