Água-viva 'imortal' inspira pesquisa sobre rejuvenescimento celular em humanos

Destaques
- •A Turritopsis dohrnii, conhecida como água-viva imortal, possui a capacidade de rejuvenescer, transformando suas células adultas em um estágio de pólipo.
- •Cientistas buscam entender os processos genéticos e moleculares por trás desse rejuvenescimento para aplicá-los em terapias regenerativas humanas, visando curar feridas e tratar doenças relacionadas ao envelhecimento.
- •Estudos comparam o DNA da água-viva com outras espécies, identificando maior quantidade de genes para reparo de DNA e manutenção de telômeros, indicando possíveis caminhos para a longevidade.
A minúscula água-viva Turritopsis dohrnii, apelidada de "água-viva imortal", desafia a morte ao reverter seu ciclo de vida. Sob estresse, ela se transforma de volta a um estágio de pólipo, a partir do qual novas medusas podem surgir, em um processo que, teoricamente, pode se repetir indefinidamente.
Cientistas, como a bióloga marinha Maria Miglietta da Universidade A&M do Texas, estudam essa capacidade única para desvendar os segredos moleculares e genéticos por trás do rejuvenescimento. O objetivo não é a ficção científica de rejuvenescer humanos como em "O Curioso Caso de Benjamin Button", mas sim aplicar a biologia regenerativa para curar feridas e tratar doenças associadas ao envelhecimento.
O mecanismo de rejuvenescimento
A capacidade da Turritopsis dohrnii foi observada pela primeira vez em 1992, quando um cientista a encontrou em estágio de pólipo após esquecer de alimentá-la. Pesquisas posteriores revelaram que, durante o rejuvenescimento, certas células adultas da medusa passam por um processo de "transdiferenciação", retornando a um estado de célula-tronco para depois se especializarem em novos tipos celulares necessários para formar o pólipo.
"As células adultas se tornam 'não diferenciadas' e se transformam em outra coisa que seja necessária para formar o pólipo", explica Miglietta, que trabalhou no laboratório do pesquisador italiano Stefano Piraino, um dos pioneiros no estudo do fenômeno.
Potencial para a medicina humana
O oncologista Michael Koldobskiy, da Universidade Johns Hopkins, destaca que o "santo graal" seria a biologia regenerativa, revertendo a degeneração celular. Embora a aplicação em humanos esteja distante, o estudo de organismos que evoluíram esses processos pode ser crucial.
A esperança é que, ao identificar a "chave" molecular que controla esse processo na água-viva, seja possível induzir mecanismos similares em células humanas. Isso poderia acelerar a cura de tecidos lesionados após eventos como AVCs ou ataques cardíacos, ou até mesmo reverter danos oculares ou neurodegenerativos.
Indicações genéticas e desafios
Um estudo de 2022 comparou o DNA da Turritopsis dohrnii com espécies não regenerativas, encontrando mais cópias de genes produtores de proteínas para reparo de DNA e manutenção de telômeros. Telômeros, que encurtam com a idade, protegem o material genético; sua maior capacidade de reparo na água-viva pode ser chave para sua longevidade.
Pesquisas de Miglietta e colegas em 2019 e 2021 identificaram maior atividade de genes envolvidos no reparo de DNA e manutenção de telômeros, além de genes com funções ainda desconhecidas. Um estudo preliminar também indicou sobreposição entre genes superativados no estágio de quisto da água-viva e genes ligados à longevidade humana.
Apesar da capacidade de rejuvenescimento, a Turritopsis dohrnii não é invencível. Algumas amostras em laboratório não conseguem rejuvenescer, e pode haver um limite para o número de ciclos. Além disso, em seu habitat natural, predadores, falta de alimento e algas podem levar à morte. A espécie, portanto, serve como um lembrete de que vida e morte são partes inseparáveis da realidade, mesmo para o organismo mais resiliente.


