Agronegócio brasileiro: soja estagna, milho e etanol ganham força em 2027

Destaques
- •Produção de soja deve ficar estável em 2027, com área plantada sem expansão pela primeira vez em 20 anos.
- •Milho e etanol de milho impulsionam o setor sucroenergético, com aumento na produção e consumo.
- •Câmbio, juros elevados e cenário fiscal são os principais pontos de atenção para o agronegócio em 2027.
O agronegócio brasileiro se prepara para um cenário de estabilização em 2027, após um período de compressão de margens em 2026. Uma das principais mudanças esperadas é a estagnação da área plantada com soja, que não deve registrar expansão pela primeira vez em aproximadamente 20 anos. A produção de soja é estimada em 178 milhões de toneladas, a segunda maior da história, mas o cenário de endividamento, juros elevados e margens apertadas deve limitar novos investimentos.
Soja: Fim da expansão e cautela do produtor
A avaliação é do relatório Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2027, do Rabobank. Segundo a analista sênior de grãos e oleaginosas, Marcela Fernandez Marini, a estabilidade da área plantada reflete a cautela do produtor após uma sequência de investimentos e a observação de margens apertadas em 2026. A área brasileira de soja deve ficar em 49 milhões de hectares na safra 2026/27. As exportações brasileiras de soja devem recuar levemente, de 114 milhões para 113 milhões de toneladas, com a retomada dos embarques norte-americanos para a China.
O câmbio continuará sendo um fator decisivo. A valorização da soja em Chicago não se traduziu na mesma proporção em reais em 2026 devido ao fortalecimento da moeda brasileira, o que impediu uma melhora expressiva na margem do produtor. O Rabobank prevê 2027 como um ano de transição, com recuperação gradual da rentabilidade, mas sem garantias de rapidez. Fatores como controle de custos, endividamento e disciplina de oferta pesarão nas decisões de investimento.
Milho e Etanol: Crescimento impulsionado pela demanda
No milho, a expansão da indústria de etanol é um dos principais motores. A produção da safra 2026/27 está estimada em 141 milhões de toneladas, com as usinas de etanol prevendo consumir 32 milhões de toneladas do cereal, um crescimento de 18% em relação a 2026. As exportações de milho também devem avançar para 38 milhões de toneladas, e o consumo para alimentação animal deve crescer 2%. Esses fatores tendem a ajustar o balanço interno, reduzir estoques e limitar quedas nas cotações.
O etanol de milho seguirá ampliando sua participação na matriz brasileira, com novas plantas adicionando cerca de 2,2 bilhões de litros à capacidade de produção, totalizando aproximadamente 14 bilhões de litros em 2027/28. O etanol de cana deve somar 26,8 bilhões de litros. A oferta maior de combustível, especialmente o hidratado, pode pressionar os preços, mesmo com a expansão da demanda.
Proteína Animal e Cana: Cenários diversos em 2027
Na bovinocultura, a retenção de fêmeas e a recomposição do rebanho devem reduzir a oferta de animais para abate. O Rabobank estima uma queda de aproximadamente 3% na produção brasileira de carne bovina em 2027, para 10,96 milhões de toneladas em equivalente carcaça (TEC). A disponibilidade para o mercado interno deve recuar 6%, para cerca de 6,5 milhões de toneladas, enquanto as exportações podem alcançar 4,49 milhões de toneladas. A menor oferta tende a sustentar as cotações, mas o consumo doméstico, que representa 61% da produção, será determinante.
No setor sucroenergético, a expectativa para a temporada 2027/28 é de moagem de até 655 milhões de toneladas de cana, com produção de açúcar estimada em 42,5 milhões de toneladas. O mercado internacional projeta um déficit global de açúcar de 2,2 milhões de toneladas na safra 2026/27, o que pode sustentar os preços em Nova York na faixa de 17 a 19 centavos de dólar por libra-peso. O gerente de pesquisa de açúcar e etanol, Andy Duff, destacou que este patamar de preço não era esperado há poucos meses.
Pontos de Atenção: Clima, Câmbio e Cenário Fiscal
O agronegócio brasileiro em 2027 exigirá cautela. O cenário macroeconômico, com a política fiscal pós-eleições, é uma fonte de incerteza, com possíveis reflexos sobre câmbio, inflação e juros. Tensões geopolíticas no ambiente externo também podem influenciar preços e custos. O clima, especialmente os riscos associados ao El Niño, completa a lista de pontos de atenção. A analista Marcela Fernandez Marini ressalta que as perspectivas de produtividade da soja podem mudar caso o El Niño apresente impactos significativos.



