Zeina Latif defende ajuste fiscal gradual e focado em gastos públicos

Destaques
- •Economista Zeina Latif propõe contenção do crescimento das despesas públicas em vez de cortes generalizados.
- •Ajustes graduais em políticas como abono salarial e BPC são vistos como alternativas viáveis.
- •Estratégia gradual é defendida devido à rigidez orçamentária e resistência política a reformas amplas.
A economista Zeina Latif defendeu, em São Paulo, que o ajuste fiscal no Brasil não precisa se basear em cortes generalizados de despesas, mas sim em medidas que controlem o ritmo de crescimento dos gastos públicos. A declaração surge em um cenário de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e em meio a discussões sobre a sustentabilidade das contas públicas.
Latif argumentou que a rigidez orçamentária e a resistência política a mudanças drásticas tornam uma estratégia gradual mais viável. A economista participou de um jantar com empresários do Mercado & Opinião, onde explicou que o país acumula distorções em despesas e benefícios que podem ser corrigidas sem a eliminação completa de programas existentes.
Contenção de gastos, não cortes generalizados
"Primeiro, não existe cortar gastos no Brasil. Não é exatamente isso", afirmou Latif, ressaltando que o foco deve ser em conter o aumento das despesas. Segundo ela, parte da pressão fiscal vem de mecanismos que elevam os gastos automaticamente, como a indexação de benefícios ao salário mínimo, vinculações de despesas à arrecadação e mudanças demográficas.
A economista destacou a necessidade de revisar o desenho de políticas públicas para identificar despesas que não estão bem direcionadas aos públicos que deveriam ser atendidos. Ela ponderou que as condições políticas e sociais atuais não favorecem uma reforma ampla que altere todo o sistema de despesas públicas de uma vez.
Ajustes em programas sociais como BPC e abono salarial
Latif citou o abono salarial e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) como exemplos de políticas que poderiam passar por ajustes. No caso do abono salarial, ela questionou sua focalização, pois atende pessoas já inseridas no mercado formal. Embora a eliminação total seja politicamente difícil, há espaço para alterar seu desenho e "reduzir" o benefício.
Em relação ao BPC, benefício assistencial para idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, a economista avaliou que uma reforma completa também enfrentaria obstáculos. Contudo, mudanças pontuais para aperfeiçoar a política são possíveis. "Dá para reformar absolutamente o BPC? Provavelmente não, mas você pode fazer ajustes no desenho", disse.
Estratégia de ajustes incrementais
A lógica defendida por Zeina Latif é a revisão de políticas públicas mal focalizadas ou com distorções, em vez de buscar a eliminação integral de benefícios. A quantidade de programas que comportam aperfeiçoamentos abre espaço para uma estratégia de ajustes simultâneos, mesmo que cada mudança individual seja limitada.
O mesmo raciocínio, segundo a economista, pode ser aplicado à estrutura tributária, que também apresenta distorções e benefícios cuja revisão poderia contribuir para a eficiência da economia. A proposta de Latif sugere um caminho de reformas incrementais e focadas, adaptadas à realidade política e social do Brasil.



