Venezuela: Delcy Rodríguez se distancia de Maduro e busca reaproximação com EUA

Destaques
- •Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, tem adotado uma postura de distanciamento de Nicolás Maduro, buscando estreitar laços com os Estados Unidos.
- •Mudanças incluem a substituição de figuras ligadas a Maduro por aliados de Rodríguez e a remoção de símbolos e menções ao ex-presidente em comunicações oficiais e espaços públicos.
- •O futuro político da Venezuela e a figura de Maduro no discurso público e nas relações internacionais permanecem como pontos de atenção.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, tem promovido uma série de mudanças políticas e simbólicas no país, marcando um distanciamento gradual do ex-presidente Nicolás Maduro, que está detido nos Estados Unidos. Um dos momentos mais emblemáticos dessa nova fase ocorreu em Nova York, onde Rodríguez e o então presidente americano Donald Trump posaram para fotos sorrindo após uma reunião, um contraste com a situação de Maduro, que enfrenta julgamento no Brooklyn.
A reaproximação com os Estados Unidos e a reconfiguração do poder interno venezuelano são evidenciadas pelo discurso de Rodríguez na Assembleia Geral da ONU, onde agradeceu a Trump pela disposição em dialogar e cooperar, omitindo completamente menções a Maduro ou a Hugo Chávez. Essa postura contrasta com pronunciamentos anteriores, onde ela se referia a Maduro como um "herói refém".
Diluição da figura de Maduro
Análises de discursos de Delcy Rodríguez revelam uma queda drástica nas menções a Nicolás Maduro ao longo dos meses. Enquanto em janeiro o nome do ex-presidente aparecia até 86 vezes em seus pronunciamentos, em abril o número caiu para oito, focando mais em suas ações de governo do que em sua situação pessoal. A jornalista Valentina Gil, que realizou o estudo, observou que as menções diminuíam ainda mais quando Rodríguez se reunia com autoridades americanas.
O analista Phil Gunson, do International Crisis Group, sugere que o "terremoto" político e social na Venezuela ajudou a diluir a figura de Maduro, com as preocupações da população voltadas para as dificuldades cotidianas e a falta de melhora econômica. A tendência de não manter viva a memória de Maduro e Cilia Flores é reforçada por gestos como a retirada de fotografias gigantes do casal de locais públicos e a substituição de símbolos associados ao chavismo tradicional.
Reacomodação de quadros e novos símbolos
A mudança de nomenclatura nas comunicações oficiais, de "presidente em exercício" para "presidente" ou "chefe de Estado", também sinaliza uma antecipação para um futuro sem a necessidade de eleições, segundo a professora Irina Troconis, da Universidade Cornell. A campanha "A Venezuela renasce" substituiu cartazes de Chávez e Simón Bolívar no Palácio da Justiça, indicando uma tentativa de reinventar a imagem pública do governo.
A reacomodação de quadros políticos também é notável, com a ascensão de figuras como Héctor Rodríguez (ministro da Educação) e Daniela Cabello (ministra do Turismo), enquanto nomes ligados a Maduro, como Alex Saab (ex-ministro da Indústria) e Vladimir Padrino López (ex-ministro da Defesa), foram afastados ou realocados. A substituição da cúpula militar e de figuras como o procurador-geral Tarek William Saab e a ex-presidente do Banco Central Laura Guerra reforçam a ideia de uma "reacomodação interna", segundo a professora Maryhen Jiménez.
Apesar da tentativa de apagar a figura de Maduro do discurso oficial, sua importância histórica e sua utilização como "inimigo" capturado pelos Estados Unidos e como "recipiente vazio" de culpas pela deterioração venezuelana são reconhecidas por analistas. O filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, por exemplo, combina o pedido de liberdade para o pai com o apoio a Delcy Rodríguez. A dinâmica entre a Venezuela e os EUA, com Trump dedicando parte de seu discurso na ONU a Maduro, demonstra a complexidade e a persistência da figura do ex-presidente no cenário político.

