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UE impõe regras contra desmatamento e setor de soja do Brasil teme perdas para Argentina

28 de outubro de 2026
UE impõe regras contra desmatamento e setor de soja do Brasil teme perdas para Argentina

Destaques

  • •Novas regulamentações da União Europeia contra o desmatamento podem impactar exportações brasileiras de farelo de soja.
  • •A Argentina, com sistemas de rastreabilidade mais consolidados e menor distância dos portos, se posiciona como potencial beneficiária.
  • •O setor brasileiro busca alternativas e argumenta sobre esforços ambientais em andamento para cumprir as exigências.

O setor de soja do Brasil expressa preocupação com as novas regulamentações da União Europeia contra o desmatamento (EUDR), que entram em vigor em 30 de dezembro. As regras exigirão que importadores comprovem que seus produtos não estão vinculados a terras desmatadas, sob pena de sanções significativas. O temor é que essas exigências reduzam as exportações de farelo de soja brasileiro para o bloco europeu, abrindo espaço para a Argentina, que se declara mais preparada para cumprir as novas normas.

O Brasil é o maior fornecedor de farelo de soja para ração animal da UE, respondendo por cerca de metade das importações do bloco. Em 2025, o país exportou um volume recorde de 23,3 milhões de toneladas métricas de farelo de soja. No entanto, a Federação Europeia de Fabricantes de Ração (FEFAC) alertou que os requisitos de rastreabilidade podem excluir até 4 milhões de toneladas (17% do total) das exportações brasileiras. O Mato Grosso e outros estados do centro e nordeste do país enfrentam "obstáculos estruturais e logísticos" devido à distância dos portos e à necessidade de múltiplos modais de transporte, o que dificulta o rastreamento.

Desafios logísticos e ambientais do Brasil

A logística brasileira, com extensas áreas agrícolas desenvolvidas em ecossistemas desmatados nas últimas décadas, apresenta desafios. O gerente de pesquisa da Max Agro, Dante Romano, explicou que a distância de mais de 2.000 km dos portos e a dependência de caminhões, barcaças e trens complicam o rastreamento das cadeias de suprimento. Em contraste, as principais áreas de produção de soja da Argentina ficam a no máximo 350 km do centro portuário de Rosário, facilitando e barateando o processo.

O presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, criticou a legislação, considerando-a injusta. Ele argumentou que o Brasil está realizando esforços de restauração ambiental, mesmo com o desenvolvimento de novas áreas de cultivo, e que os problemas ambientais do país são menores em proporção à sua agricultura.

Argentina se posiciona como alternativa

A Argentina, por sua vez, vê uma oportunidade de se beneficiar das dificuldades brasileiras. Gustavo Idigoras, presidente da CIARA-CEC (câmara argentina de exportadores e processadores de grãos), afirmou que o país está pronto para preencher a lacuna, estimando perdas brasileiras entre 5 e 6 milhões de toneladas. Ele destacou o sistema de rastreabilidade VISEC, que já acompanha a soja e a carne bovina desde a produção até a exportação.

A FEFAC atribuiu à Argentina uma recomendação de risco "baixa" para interrupções no abastecimento relacionadas ao EUDR, projetando que quase toda a safra de farelo de soja do país no primeiro semestre de 2027 atenderá aos requisitos. Romano sugere que a Argentina pode suprir déficits brasileiros, enquanto o Brasil pode buscar mercados alternativos.

O Paraguai, outro membro do Mercosul, também se mostra preparado. A Câmara de Moagem de Grãos do Paraguai (CAPPRO) informou que o país possui "condições estruturais favoráveis", com uma lei de 2004 que proíbe o desmatamento para uso agrícola na região Oriental, onde a maior parte da soja é cultivada. Assim como a Argentina, o Paraguai recebeu uma recomendação de baixo risco da FEFAC.

Esses ajustes ocorrem em um momento sensível nas relações entre a UE e o Mercosul, após um acordo provisório de livre comércio ter sido alcançado em maio.

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