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Tecnologia: de suporte operacional a pilar estratégico para governos e empresas

22 de outubro de 2026

Destaques

  • •A tecnologia evoluiu de uma função operacional para um fator determinante na estratégia corporativa e na competitividade.
  • •Governos precisam integrar a tecnologia ao planejamento para garantir soberania, segurança e desenvolvimento econômico.
  • •A adoção de uma visão estratégica sobre tecnologia pode impulsionar negócios, empregos e a autonomia de um país.

A tecnologia, antes restrita a funções operacionais como suporte e manutenção de sistemas, assumiu um papel central na estratégia de empresas e governos. A transformação digital, impulsionada por plataformas, dados e conectividade, elevou a tecnologia de um mero suporte a um fator determinante para o crescimento, a inovação e a competitividade. Essa mudança redefiniu o papel do CIO (Chief Information Officer), que agora participa ativamente das decisões estratégicas corporativas, gestão de riscos e transformação de negócios. Historicamente dominadas por perfis financeiros (CFOs) ou de operações (COOs), as posições de CEO têm visto uma ascensão de profissionais de marketing (CMOs) e tecnologia (CIOs/CTOs), refletindo a nova tendência do mercado corporativo.

Tecnologia e Soberania Nacional

A relevância da tecnologia transcende o ambiente corporativo, impactando diretamente a capacidade de um país em áreas cruciais. A pergunta sobre por que a tecnologia é frequentemente tratada como secundária no planejamento governamental ganha força quando se considera seu papel na produtividade econômica, segurança nacional de infraestruturas, qualidade das políticas públicas e autonomia de decisão. Autores como Benjamin Bratton e Farrell e Newman exploram como infraestruturas computacionais e a interdependência econômica global moldam relações de poder e geram vantagens estratégicas. A dependência tecnológica, portanto, não se resume a contratos, mas afeta a capacidade de um Estado de proteger dados, manter serviços essenciais e definir seus próprios caminhos de desenvolvimento.

A soberania tecnológica não implica autossuficiência absoluta, mas sim o conhecimento das próprias dependências, o desenvolvimento de competências essenciais e a preservação da capacidade de decisão em momentos estratégicos. Governos precisam compreender as implicações de suas escolhas tecnológicas, pois contratos, plataformas e sistemas de dados podem criar dependências que transcendem mandatos políticos e condicionam decisões futuras. A soberania, em sua essência, é a capacidade de decidir, um princípio que se aplica tanto a Estados quanto a empresas que terceirizam serviços e dados.

Do Governo Digital ao Estado Estrategicamente Capaz

A modernização do Estado vai além da digitalização de serviços públicos. Um processo pode ser digitalizado sem se tornar mais eficiente, integrado ou seguro. A maturidade digital, conforme o Digital Government Policy Framework da OCDE, depende tanto da tecnologia quanto da capacidade de reorganizar instituições e processos. O desafio é construir um Estado capaz não apenas de adotar tecnologias, mas de governá-las, avaliar seus riscos e utilizá-las para atingir objetivos públicos.

Isso exige a integração da tecnologia ao planejamento de setores como saúde, educação e segurança, além de uma visão estratégica sobre contratação pública, interoperabilidade e proteção de dados. A liderança tecnológica no governo deve participar desde a formulação de políticas, avaliando alternativas, identificando riscos e definindo prioridades de investimento. A tecnologia, portanto, deve ser vista como uma capacidade estratégica, e não apenas como um suporte operacional.

Infraestrutura Crítica e Antecipação Tecnológica

A dimensão física da soberania tecnológica abrange infraestruturas críticas como energia, telecomunicações e centros de dados. A resiliência e a capacidade de resposta diante de crises são fundamentais, como destacado pela OTAN. A antecipação de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e computação quântica, é igualmente crucial. Exemplos como os padrões de criptografia pós-quântica do NIST nos EUA demonstram a importância de preparar sistemas para riscos futuros. Governos precisam desenvolver mecanismos de análise de tendências, avaliação de riscos e cooperação entre universidades, empresas e instituições públicas.

A Recomendação da Comissão Europeia sobre segurança econômica e a tecnologia como parte da política industrial e estratégia geopolítica reforçam essa visão. A tecnologia, quando integrada ao planejamento governamental, não só moderniza o Estado, mas também cria condições para novas oportunidades econômicas. Isso inclui o estímulo à criação de empresas, atração de investimentos, geração de empregos qualificados e fortalecimento da pesquisa e desenvolvimento, impulsionando a competitividade nacional.

Tecnologia como Motor de Negócios e Desenvolvimento

Uma estratégia tecnológica consistente pode impulsionar a criação de empresas, fortalecer negócios existentes e atrair investimentos, abrindo mercados para produtos e serviços locais. A colaboração entre universidades e empresas, o empreendedorismo e o surgimento de novos setores econômicos são beneficiados. A demanda por empregos qualificados e novas competências aumenta, impactando startups, pequenas e grandes indústrias. A UNCTAD, em seu relatório sobre IA, ressalta que o acesso à tecnologia não garante inovação ou crescimento; é preciso criar condições para transformar conhecimento em valor econômico.

O governo tem um papel vital em estabelecer prioridades, desenvolver infraestrutura, promover educação tecnológica e oferecer segurança jurídica. A contratação pública estratégica pode criar oportunidades para empresas inovadoras e estimular novos mercados. O objetivo deve ser não apenas adquirir tecnologia, mas participar de seu desenvolvimento e adaptação. Resultados dependem de políticas consistentes, acesso a capital, qualificação profissional e mecanismos que traduzam investimento tecnológico em benefícios econômicos e sociais, com atenção à inclusão.

O Global Risks Report do World Economic Forum sublinha a importância do planejamento de longo prazo em um cenário de transformações tecnológicas e interdependência econômica. Uma estratégia tecnológica bem estruturada amplia a capacidade do Estado de proteger seus interesses e prestar melhores serviços, ao mesmo tempo que fomenta negócios, investimentos e prosperidade. A tecnologia deixa de ser uma despesa para se tornar uma plataforma de desenvolvimento econômico.

Uma Nova Arquitetura para Projetos de Governo

Para que essa transformação ocorra, a tecnologia deve ser integrada desde o início na formulação dos projetos de governo. Isso envolve cinco frentes: estratégia nacional de capacidades tecnológicas; integração entre tecnologia e infraestrutura crítica; fomento ao conhecimento, talentos e capacidade produtiva; governança e capacidade regulatória; e execução com resultados mensuráveis. A liderança tecnológica pública precisa ter espaço para contribuir com decisões estratégicas, assim como ocorreu nas empresas com a ascensão dos CIOs. A tecnologia não pode mais ser tratada apenas como um instrumento de modernização, mas como uma capacidade estratégica que integra condições econômicas, materiais e institucionais para o desenvolvimento, a competitividade e a autonomia do país.

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