Tabagismo eleva em 5 a 6 vezes o risco de periodontite e câncer bucal
Destaques
- •Fumo é o principal fator de risco evitável para diversas doenças, com impacto significativo na cavidade bucal.
- •Fumantes têm risco 5 a 6 vezes maior de desenvolver periodontite destrutiva e o tabagismo é uma das principais causas de câncer de boca.
- •A interrupção do tabagismo traz benefícios progressivos para a saúde bucal, com redução do risco de doenças ao longo do tempo.
O tabagismo é um fator de risco evitável para inúmeras doenças, com um impacto frequentemente subestimado na cavidade bucal e orofaringe. A fumaça do cigarro causa agressão térmica, química e vascular, alterando profundamente o microambiente bucal e afetando tecidos moles e duros. Doenças destrutivas na gengiva, falhas em procedimentos cirúrgicos e o desenvolvimento de lesões pré-cancerosas e malignas estão diretamente ligados ao hábito de fumar.
A principal complicação bucal associada ao tabagismo é a periodontite, uma inflamação crônica grave que afeta a gengiva e as estruturas de suporte dos dentes, podendo levar à perda óssea e dentária. Fumantes apresentam um risco de desenvolver periodontite destrutiva de 5 a 6 vezes maior em comparação a não fumantes, com um aumento de risco estimado de pelo menos 50% de forma dose-dependente.
Cigarro mascara sinais e altera flora bucal
O tabaco promove a vasoconstrição na gengiva, reduzindo o sangramento gengival, que é um sintoma clássico de inflamação. Isso cria uma falsa impressão de gengiva saudável enquanto a destruição óssea progride silenciosamente. Além disso, o cigarro altera a flora bacteriana bucal, diminuindo as bactérias protetoras e favorecendo o crescimento de patógenos periodontais agressivos.
A especialista Janaina Rossin, dentista e membro da Câmara Técnica de Periodontia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), explica que o tabagismo também está entre as principais causas do câncer de boca. Quando combinado ao consumo frequente de álcool, o risco de câncer bucal aumenta exponencialmente, com uma taxa de sobrevida em 5 anos de apenas cerca de 20% para casos diagnosticados em estágios avançados.
Outras condições bucais e cuidados
Antes do aparecimento de um tumor, a mucosa exposta ao tabaco pode desenvolver lesões como leucoplasia (manchas brancas) e eritroplasia (manchas avermelhadas). Outras condições bucais associadas ao fumo incluem cárie dentária, halitose (mau hálito), questões estéticas como pigmentação dos dentes, complicações cirúrgicas como alveolite seca e peri-implantite, e maior prevalência de dor orofacial.
Os cuidados básicos incluem higiene diária rigorosa, com escovação e uso de fio dental, redução no consumo de açúcares e gerenciamento de fatores de risco como boca seca e diabetes. Pacientes fumantes se enquadram na categoria de alto risco e necessitam de consultas odontológicas com frequência igual ou superior a 6 em 6 meses. O consultório odontológico é um local estratégico para intervenções de cessação do tabagismo.
Benefícios da cessação do tabagismo
A interrupção do tabagismo traz benefícios concretos e progressivos para a saúde bucal. Em 5 dias, ocorre a recuperação da microcirculação gengival. Em poucas semanas, há redução significativa da halitose. Em 3 meses, pode haver regressão de lesões de leucoplasia. Em 1 a 2 anos, a resposta ao tratamento periodontal se equipara à de não fumantes. Em 4 anos, o risco de câncer de boca cai 35%. Em 10 a 20 anos, o risco de perda dentária e câncer bucal se aproxima do de quem nunca fumou.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado em 1998 na Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo investigou o tabagismo como fator de risco para doenças periodontais, com foco em aspectos microbiológicos. A pesquisa avaliou a frequência de periodontopatógenos em indivíduos fumantes e não fumantes, sadios e com doença periodontal, além de verificar a relação entre microrganismos produtores de sulfeto de hidrogênio e a condição clínica. Verificou-se que a frequência de isolamento de bactérias anaeróbias produtoras de pigmento negro e de bactérias produtoras de sulfeto de hidrogênio foi similar entre fumantes e não fumantes, sendo mais elevada em pacientes com doença periodontal. Já o Actinobacillus actinomycetemcomitans foi isolado mais frequentemente em sadios fumantes do que em sadios não fumantes.
Pesquisa citada
- O tabagismo como fator de risco para as doenças periodontais: aspectos microbiológicos
Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo · 1998
Matérias originais
- Quais são os efeitos do cigarro na saúde bucal? · drauziovarella.uol.com.br


