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Sucessão de fortunas familiares no Brasil: herdeiros relutam em assumir gestão

01 de novembro de 2026
Sucessão de fortunas familiares no Brasil: herdeiros relutam em assumir gestão

Destaques

  • •Cerca de 30% das empresas familiares brasileiras chegam à segunda geração, e menos de 10% à terceira.
  • •Mudanças tributárias e a relutância de herdeiros em assumir a gestão forçam famílias a planejar a sucessão patrimonial.
  • •O planejamento sucessório deve ser um processo contínuo, com regras claras e envolvimento dos herdeiros desde cedo.

A gestão de grandes fortunas familiares no Brasil enfrenta um desafio crescente: a relutância de herdeiros em assumir o controle dos negócios e do patrimônio. Tradicionalmente, esperava-se que a nova geração desse continuidade ao legado construído pelos fundadores nas décadas de 1990 e 2000. No entanto, muitos descendentes optam por seguir carreiras próprias ou buscam outros propósitos, um fenômeno conhecido no mundo corporativo como quiet ambition.

Essa recusa em assumir a gestão pode ser uma decisão consciente, protegendo o patrimônio de uma sucessão forçada e mal preparada. A questão central para as famílias empresárias deixa de ser apenas a escolha de um sucessor, mas sim quem está disposto e capacitado para assumir essa responsabilidade, e se existe um plano concreto para essa transição.

O risco da sucessão mal conduzida

Os números indicam a fragilidade desse processo no Brasil. Segundo a PwC Global Family Business Survey, apenas cerca de 30% das empresas familiares alcançam a segunda geração, e menos de 10% chegam à terceira. Na maioria dos casos, o patrimônio não se perde por má performance dos investimentos, mas sim por conflitos internos, falta de regras claras e transições mal planejadas.

O desafio tende a se agravar. O Brasil se posiciona como o terceiro país no mundo em volume de riqueza a ser transferida nas próximas duas décadas, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, conforme o UBS Global Wealth Report 2025. Para muitas famílias, a primeira grande sucessão patrimonial ainda está por vir.

Fatores que aceleram a necessidade de planejamento

A urgência em discutir a sucessão é impulsionada por três fatores principais. O primeiro é geracional: os herdeiros nem sempre compartilham os mesmos objetivos dos fundadores. O segundo é demográfico, com os fundadores atingindo idades entre 70 e 80 anos. O terceiro, e crucial, é o tributário.

A Emenda Constitucional 132, de 2023, estabeleceu a cobrança progressiva do ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação), imposto sobre heranças e doações. Em janeiro de 2026, a Lei Complementar 227 detalhou regras para a avaliação de bens, participações societárias, ativos no exterior, trusts e doações sucessivas. Embora os efeitos completos dependam de leis estaduais e do princípio da anterioridade, com consolidação prevista a partir de 2027, 2026 surge como uma janela para organizar a sucessão antes que os novos critérios se tornem definitivos.

Transformação na gestão de patrimônio e próximos passos

Nesse cenário, a indústria de wealth management (gestão de patrimônio) se adapta, focando em um horizonte que transcende o próximo ciclo de mercado para abranger as futuras gerações. O planejamento sucessório vai além da economia tributária; quando este se torna o único motivador, decisões estruturais podem ser tomadas sem a devida definição sobre quem administrará os bens e se há consenso familiar.

O primeiro passo essencial é um diagnóstico para identificar quais herdeiros têm interesse e competência para a gestão, e quais preferem se afastar. Essa análise distingue a administração da propriedade. A partir daí, a família pode optar por profissionalizar a gestão com executivos de mercado, mantendo a família no conselho e na propriedade, ou preparar a empresa para venda. A indefinição, contudo, costuma ser o pior caminho, abrindo margem para conflitos.

É fundamental que os herdeiros sejam envolvidos ativamente no processo, com acesso à informação e responsabilidade, construindo vínculo com o patrimônio antes da sucessão formal. A formalização de um protocolo familiar, com critérios para entrada na gestão, remuneração e resolução de conflitos, é crucial. A sucessão deve ser vista como um processo contínuo, com revisões periódicas, adaptando-se às mudanças legais, familiares e de interesses.

A capacidade de um grande patrimônio sobreviver às gerações depende não apenas de sua rentabilidade, mas da qualidade da passagem de bastão. Construir riqueza é uma maratona; preservá-la é um revezamento que exige que quem entrega e quem recebe o bastão corram juntos antes da troca.

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