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Semaglutida: Uso para emagrecimento ofusca benefícios para diabetes e rins

06 de novembro de 2026
Semaglutida: Uso para emagrecimento ofusca benefícios para diabetes e rins

Destaques

  • •Estudo aponta que quase 70% de idosos com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular não usam semaglutida, apesar de sua eficácia comprovada.
  • •A popularidade da semaglutida para perda de peso desvia o foco de seus benefícios cruciais no tratamento de doenças cardíacas e renais.
  • •Novos medicamentos similares à semaglutida chegam ao mercado brasileiro, aumentando a concorrência e a disponibilidade, mas a prioridade de uso para pacientes de risco precisa ser mantida.

A semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, transcendeu o ambiente médico para se tornar um fenômeno cultural, impulsionada por seu uso para perda de peso. No entanto, essa popularidade tem obscurecido sua importância vital no tratamento de pacientes com diabetes tipo 2, especialmente aqueles com complicações cardiovasculares ou renais, que são os maiores beneficiários de seus efeitos protetores.

Estudos clínicos robustos demonstram os benefícios da semaglutida para além do controle glicêmico. O estudo SUSTAIN-6, envolvendo cerca de 3.300 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, revelou uma redução de 26% no risco de infarto, AVC e morte cardiovascular em dois anos. Adicionalmente, o estudo FLOW mostrou que, em pacientes com diabetes e doença renal crônica, o risco de piora renal grave diminuiu 24% e a mortalidade cardiovascular, 29%. O estudo SELECT, por sua vez, confirmou a proteção cardiovascular em indivíduos com obesidade e doença cardíaca, mesmo sem diabetes.

Uso real diverge das recomendações médicas

Apesar dessas evidências, um estudo publicado no JAMA Network Open, analisando dados de aproximadamente 177 mil idosos com diabetes tipo 2 nos Estados Unidos entre 2017 e 2022, revelou uma disparidade preocupante. Cerca de 68,5% dos pacientes com diabetes e doença cardiovascular ou renal não estavam utilizando semaglutida ou medicamentos similares, mesmo sendo este o grupo que mais se beneficiaria. Embora tenha havido um avanço em relação a 2018, quando 82,8% estavam sem o tratamento, a progressão tem sido lenta, mesmo entre pacientes acompanhados por especialistas.

A comparação com pacientes de menor risco torna o cenário ainda mais alarmante. Em 2022, a taxa de prescrição de semaglutida era praticamente a mesma para pacientes de alto risco (31,5%) e de menor risco (29,4%), sugerindo que a prescrição não estava priorizando aqueles com maior perigo. Os autores levantam a hipótese de que a demanda crescente, impulsionada pela fama do emagrecimento e pela publicidade em redes sociais, pode estar guiando as prescrições mais pelo apelo midiático e pelo pedido do paciente do que pela necessidade clínica.

Demanda estética supera indicação terapêutica

Paralelamente, um estudo publicado na revista Obesity indicou que mais de 1 milhão de pessoas sem indicação aprovada para semaglutida, como diabetes ou obesidade, receberam esses medicamentos. Mais de um terço desses pacientes apresentava peso adequado, e cerca de 15% dos usuários de semaglutida em 2022 não tinham diagnóstico de diabetes ou excesso de peso. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia respondido a esse uso estético e a eventos adversos ao exigir retenção de receita médica para a compra desses medicamentos.

A chegada de versões nacionais e a queda da patente da semaglutida, prevista para março de 2026, tendem a aumentar o acesso a esses medicamentos. O Semaclique, comercializado pela Brace Pharma (Grupo EMS) por cerca de R$ 464,81 a unidade, é um exemplo. A semaglutida atua como agonista do receptor de GLP-1, imitando um hormônio intestinal que regula a glicose e o apetite, com aplicação semanal subcutânea.

Prioridade para pacientes de risco

Apesar da chegada de novas marcas e da potencial ampliação da concorrência, a questão central permanece: a priorização do tratamento para quem mais precisa. Para pacientes com diabetes tipo 2 e histórico de infarto, AVC ou doença renal, a pergunta crucial na próxima consulta não deve ser sobre emagrecimento, mas sim sobre a proteção cardiovascular e renal que a semaglutida pode oferecer. É fundamental que pacientes nunca iniciem ou suspendam tratamentos por conta própria, mas que discutam abertamente com seus médicos sobre as melhores opções terapêuticas para sua condição.

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