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Semaglutida genérica chega ao Brasil com preços mais baixos que o original

26 de outubro de 2026
Semaglutida genérica chega ao Brasil com preços mais baixos que o original

Destaques

  • •Genéricos da semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, já estão disponíveis no Brasil após expiração da patente.
  • •Preços no Brasil, embora mais baixos que o Ozempic, ainda são significativamente mais altos que os registrados na Índia.
  • •Acesso ampliado e redução de custos são desafios para medicamentos inovadores, mesmo após a chegada de genéricos.

A patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, expirou na Índia em março de 2026. Pouco tempo depois, cerca de 40 laboratórios locais lançaram suas versões genéricas, disponíveis em canetas, frascos e comprimidos. Uma revisão publicada na revista médica Diabetes Care, da Associação Americana de Diabetes, detalha o impacto dessa liberação no mercado indiano e compara com a situação no Brasil.

Na Índia, um mês de semaglutida genérica custa entre 2.000 e 3.500 rúpias (aproximadamente R$ 100 a R$ 180), bem abaixo dos mais de US$ 1.000 (cerca de R$ 5.500) cobrados nos Estados Unidos pelo medicamento de referência. O efeito no consumo foi imediato: as vendas de semaglutida na Índia saltaram de 25 mil unidades em fevereiro para 170 mil em abril, um aumento de seis a sete vezes em dois meses.

O fenômeno de barateamento não se restringe à semaglutida. Outros medicamentos modernos para diabetes, como gliflozinas e gliptinas, tiveram seus preços reduzidos em 60% a 90% após a chegada das cópias genéricas. Em farmácias populares indianas, esses remédios custam entre US$ 1 e US$ 2 mensais, enquanto nos EUA o preço estimado é de US$ 204 e US$ 258, respectivamente.

Por que a Índia consegue preços tão baixos?

Três fatores explicam essa diferença de custo. O primeiro é a escala de produção: a Índia responde por cerca de 20% dos genéricos consumidos globalmente, e produzir para exportação barateia o custo no mercado interno. O segundo é a legislação de patentes, que desde 2005 impede a renovação de patentes por pequenas modificações sem ganho terapêutico comprovado, freando a perenização de patentes.

O terceiro fator é o controle de preços, com tetos fixados pelo governo para remédios essenciais e compras públicas em grande volume. Apesar disso, a renda mediana das famílias indianas (entre US$ 133 e US$ 292 mensais) torna mesmo a semaglutida genérica um gasto relevante, e o uso ainda é concentrado em quem pode pagar, já que planos públicos raramente cobrem medicamentos de uso contínuo fora de hospitais. Há também a preocupação com a qualidade, pois com dezenas de fabricantes, podem existir diferenças entre as versões.

E o cenário no Brasil?

No Brasil, a patente da semaglutida também expirou em março de 2026. Em maio, a Anvisa aprovou o Ozivy, semaglutida sintética da brasileira EMS, que chegou às farmácias em junho por cerca de R$ 333 a caneta. Em agosto, os primeiros genéricos, da EMS e da Germed, foram lançados. Pela lei, genéricos devem custar ao menos 35% menos que o medicamento de referência.

O Ozempic, por comparação, custa perto de R$ 1.000. Uma grande rede de farmácias relatou uma queda de 50% no preço médio da semaglutida no segundo trimestre, com um aumento de 155% no volume vendido. Embora seja um avanço, o preço ainda está distante dos valores praticados na Índia.

O que diz a pesquisa

Um estudo publicado na revista Diabetes em 2024, com acompanhamento de 12 meses, analisou o uso da semaglutida oral em pacientes com diabetes tipo 2 na Índia. A pesquisa observacional envolveu 152 pacientes, com idade média de 50,14 anos e um índice de massa corporal médio de 29,82 kg/m². Os resultados mostraram uma redução média de 1,81% no HbA1c (indicador de controle glicêmico) e de 5,03 kg no peso corporal após um ano de tratamento. Os efeitos adversos mais comuns foram fraqueza generalizada e náuseas.

Outro estudo, também publicado na revista Diabetes e com acompanhamento de 24 meses, avaliou 109 pacientes indianos com diabetes tipo 2 em uso de semaglutida oral. Os resultados indicaram uma redução média de 1,63% no HbA1c e de 4,85 kg no peso corporal após dois anos de tratamento. A adesão à terapia foi de 72% ao final do período. Os efeitos colaterais mais frequentes incluíram fraqueza, náuseas, boca seca e diarreia, sem relatos de hipoglicemia ou outros eventos adversos graves.

O Brasil possui mecanismos como a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos e o programa Farmácia Popular, que poderiam facilitar o acesso a esses medicamentos. No entanto, a falta de inclusão desses remédios na rede pública, onde se concentra a maioria dos brasileiros com diabetes, ainda é um obstáculo. A lição é que inovação, por si só, não garante acesso; o valor real de um medicamento está em chegar a quem precisa. A semaglutida, mesmo com a chegada de genéricos, continuará exigindo receita e acompanhamento médico.

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