Endometriose cerebral: caso raro de convulsão ligada à menstruação é relatado

Destaques
- •Mulher com convulsões cíclicas ligadas à menstruação teve lesão cerebral que desapareceu após tratamento hormonal.
- •O caso, publicado no Journal of Clinical Medicine, levanta a hipótese de endometriose cerebral, condição extremamente rara.
- •Diagnóstico definitivo por biópsia não foi possível, mas resposta ao tratamento reforça a suspeita.
Um caso incomum de uma mulher de 41 anos que sofria de convulsões exclusivamente durante a menstruação chamou a atenção de pesquisadores. Após anos de investigação, exames de ressonância magnética identificaram uma lesão no hipocampo direito, região do cérebro associada à memória, levando à suspeita de endometriose cerebral. A condição é uma manifestação rara da doença, que ocorre quando tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero.
As primeiras crises epilépticas da paciente ocorreram em fevereiro de 2019, com perda de consciência, olhar fixo e confusão. Ela não apresentava os sintomas típicos da endometriose pélvica, como cólicas intensas. Um diário de acompanhamento revelou a forte correlação entre as convulsões e o período menstrual. Exames de imagem posteriores, em 2019 e 2020, mostraram uma alteração no hipocampo, mas as causas investigadas, como malformações, infecções ou tumores, não foram conclusivas, e medicamentos antiepilépticos não controlavam as crises.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado em 11 de setembro no Journal of Clinical Medicine por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia, detalha o caso. O artigo relata uma paciente de 48 anos com epilepsia iniciada aos 41, associada à perda de memória e padrão catamenial de convulsões. A ressonância magnética cerebral revelou uma lesão no hipocampo com características que imitavam outras condições neurológicas. Devido à associação temporal com a menstruação, a endometriose cerebral foi considerada. A paciente recebeu terapia hormonal com progestinas, após a qual a terapia antiepiléptica foi suspensa e os sintomas neurológicos resolveram-se completamente. Ressonâncias de acompanhamento mostraram regressão ou desaparecimento da lesão.
Como o ciclo menstrual influencia as crises
A epilepsia catamenial, caracterizada pela concentração de crises em fases específicas do ciclo menstrual, pode afetar entre um terço e metade das mulheres em idade fértil com epilepsia. A relação é explicada pela influência dos hormônios sexuais nos neurônios: o estrogênio pode aumentar a excitabilidade cerebral, enquanto a progesterona tem efeito inibitório. A queda da progesterona perto da menstruação pode desencadear crises em mulheres predispostas. No entanto, essa relação hormonal por si só não indica endometriose.
A endometriose cerebral é uma condição extremamente rara, com apenas oito casos descritos anteriormente na literatura. A hipótese para a chegada do tecido endometrial ao cérebro inclui o transporte por vasos sanguíneos ou linfáticos, ou a permanência de células deslocadas durante o desenvolvimento embrionário. A raridade e a localização específica da lesão no hipocampo dificultaram a confirmação diagnóstica por biópsia, considerada arriscada.
Diagnóstico e próximos passos
A resposta positiva ao tratamento hormonal com dienogeste e desogestrel, iniciado em 2021, levou à cessação das convulsões e à suspensão dos medicamentos antiepilépticos. Em março de 2026, uma nova ressonância magnética não mostrou mais a lesão. O ginecologista Marcos Tcherniakovsky, da Sociedade Brasileira de Endometriose, explica que a doença é sistêmica e pode afetar diversas partes do corpo, embora o acometimento cerebral seja excepcional. O ginecologista Gustavo Leme aponta que um sinal de ferro observado em exames anteriores, indicativo de sangramento antigo, não é exclusivo da endometriose.
Apesar da melhora clínica e radiológica, a causa exata do desaparecimento da lesão e do fim das convulsões permanece incerta. A melhora pode estar ligada ao controle de um foco de endometriose cerebral ou à interrupção das oscilações hormonais. Sem confirmação por análise tecidual, ambas as explicações permanecem em aberto. O tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025, e as crises não retornaram até o acompanhamento relatado.
Pesquisa citada
Matérias originais
- Mulher tem convulsões só na menstruação e lesão some após tratamento · olhardigital.com.br



