Boato sobre benzeno em carros é desmentido por medições e estudos

Destaques
- •Postagem antiga ressurgiu com alegações falsas sobre acúmulo de benzeno em carros.
- •Estudos e medições recentes indicam níveis de benzeno muito abaixo do considerado perigoso.
- •Recomenda-se ventilação do veículo, mas os níveis do boato são exagerados.
Um boato que circula desde 2020, e que voltou a ganhar força em setembro deste ano, alega que carros fechados acumulam entre 400 a 800 mg de benzeno à sombra e até 4 g sob o sol, alertando para o risco cancerígeno da substância e recomendando a aeração do veículo por dois minutos.
No entanto, a verdade por trás dessas afirmações é outra. Estudos na área medem a concentração de benzeno em massa por volume, e não apenas em massa, como sugere o boato. Em 2024, medições realizadas durante sete dias em um carro novo registraram apenas 1,5 micrograma (µg) de benzeno por metro cúbico (m³) na cabine. Para contextualizar, a agência de segurança no trabalho dos Estados Unidos considera perigosas concentrações acima de 300 µg/m³.
Origem provável do boato
A provável origem dessa informação equivocada remonta a um estudo de 2003. Na época, a pesquisa identificou a presença de 400 a 800 µg/m³ de compostos orgânicos voláteis (COVs) em carros fechados. É importante notar que o benzeno representava apenas uma pequena fração desses COVs, e a unidade de medida utilizada era diferente daquela apresentada no boato atual.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado em 2017 na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional avaliou a exposição ocupacional ao benzeno em trabalhadores de postos de gasolina. A pesquisa utilizou o Teste Cometa como biomarcador de genotoxicidade e o ácido trans,trans-mucônico urinário (AttM) como biomarcador de exposição ao benzeno. Os resultados indicaram que o Teste Cometa mostrou um índice de dano significativamente mais elevado em trabalhadores expostos à gasolina em comparação com um grupo controle. Da mesma forma, o AttM urinário foi consideravelmente maior no grupo exposto. Os dois biomarcadores apresentaram uma boa correlação linear, sugerindo uma forte associação entre a exposição ao benzeno e o risco aumentado de dano genotóxico.
Recomendação e realidade
Embora a recomendação de arejar o carro por alguns minutos seja uma prática saudável para renovar o ar interior, os níveis de benzeno mencionados no boato são desproporcionais à realidade. As medições científicas e os estudos indicam que a exposição ao benzeno em veículos, mesmo em condições fechadas, está muito abaixo dos limites considerados perigosos pelas agências de saúde.
Pesquisa citada
- Avaliação da exposição ocupacional ao benzeno em trabalhadores frentistas e analistas de combustíveis utilizando o Teste Cometa como biomarcador de genotoxicidade
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional · 2017
Matérias originais
- “Carro deixado no sol acumula até 4 g de benzeno.” Não é bem assim… · super.abril.com.br



