Renda fixa: juros altos nos EUA e incertezas no Brasil elevam retornos no Tesouro Direto

Destaques
- •Títulos públicos americanos voltam a oferecer rendimentos comparáveis aos das ações, recuperando funções de geração de renda e diversificação.
- •No Brasil, o cenário de incertezas fiscais e o aperto monetário nos EUA impulsionam as taxas do Tesouro Direto para patamares próximos a 15% ao ano.
- •Investidores avaliam o equilíbrio entre risco e retorno de diferentes classes de ativos, com atenção especial à diversificação internacional e ao cenário político doméstico.
O cenário de investimentos em renda fixa passou por uma transformação significativa nos últimos 15 anos. Se antes os juros baixos nos Estados Unidos desestimulavam a exposição a títulos de renda fixa em favor das ações, a situação se inverteu. Atualmente, os rendimentos de títulos de alta qualidade nos EUA voltaram a níveis comparáveis aos dos lucros das ações, recuperando duas funções essenciais: gerar renda e diversificar carteiras em momentos de instabilidade econômica. Em 3 de setembro, o índice de referência da renda fixa investment grade nos EUA rendia 5,03%.
A gestora PIMCO destaca que, embora isso não garanta um desempenho superior da renda fixa em relação às ações, a relação entre risco e retorno se tornou mais comparável. Os títulos agora oferecem maior visibilidade sobre a remuneração esperada, um contraste com o período de juros baixos, quando o rendimento real do Treasury de dez anos estava em torno de -1%. Hoje, esse rendimento real se aproxima de 2,4%, próximo ao limite superior das últimas duas décadas.
Risco fiscal e juros em alta no Brasil
No Brasil, o cenário é marcado por juros elevados e incertezas fiscais. As taxas do Tesouro Direto seguem em patamares altos, com prefixados girando em torno de 15% ao ano e títulos atrelados à inflação pagando mais de 7% acima do IPCA. Essa alta é impulsionada pela preocupação com as contas públicas após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela expectativa de que o Federal Reserve (Fed) dos EUA possa aumentar os juros novamente em dezembro, o que pode limitar o espaço para cortes na Selic.
O mercado especula sobre a possibilidade de o governo aumentar o IOF sobre investimentos isentos, como LCI e LCA, para reforçar a arrecadação. Essa leitura de risco fiscal elevado leva os investidores a exigirem um prêmio maior para emprestar dinheiro ao governo. Mesmo recompras de R$ 31,6 bilhões pelo Tesouro em dois dias não foram suficientes para segurar as taxas por mais de uma sessão.
Dólar e diversificação internacional
A volatilidade do câmbio também é um fator de atenção. Após a eleição presidencial, o dólar saltou e se estabilizou em patamares mais altos, com bancos e corretoras projetando a moeda entre R$ 5,40 e R$ 5,50 nos próximos meses, caso os sinais sobre a política fiscal não convençam. Por outro lado, propostas críveis do governo podem levar a divisa americana a cair abaixo de R$ 5,30.
Nesse contexto, a diversificação internacional se torna ainda mais importante. O estrategista global da Avenue, Fernando Saad Benati, ressalta que a ideia de ampliar o investimento em dólar deve ser pensada no longo prazo, visando a perpetuação do patrimônio. Os juros americanos em níveis elevados tornam a renda fixa internacional uma opção atraente, com retornos de Treasuries ultrapassando 5% ao ano.
Um exercício mostra que um investimento de US$ 10 mil em 2016 com retorno de 5% ao ano teria se tornado US$ 16,3 mil em 2026. Em reais, esse valor chegaria a R$ 87,2 mil, uma valorização de 172%, superando o CDI (144%) e o IPCA (62,3%) no mesmo período. Essa performance histórica, embora não garanta resultados futuros, ilustra o potencial da diversificação em moeda forte para proteger o portfólio.
Próximos passos
O mercado continuará atento aos desdobramentos da política fiscal brasileira e às decisões de política monetária do Federal Reserve. A formação da equipe econômica e as medidas para arrumar as contas públicas serão cruciais para definir a trajetória do câmbio e dos juros no Brasil. A possibilidade de aumento do IOF sobre investimentos isentos também é um ponto a ser monitorado.
Matérias originais
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