Reino Unido considera pedir desculpas por tráfico de escravizados
Destaques
- •Primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, propõe diálogo sobre pedido de desculpas pelo papel do Reino Unido no tráfico transatlântico de escravizados.
- •A iniciativa visa fortalecer relações com nações da África e do Caribe, mas o governo resiste a pedidos de reparações financeiras.
- •O Rei Charles III também enfrenta pressão por desculpas e reparações durante sua viagem pelo Caribe.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, anunciou que o governo britânico considerará, pela primeira vez, um pedido de desculpas formal pelo papel do país no tráfico transatlântico de escravizados. A declaração, publicada no jornal The Guardian, surge como um esforço para fortalecer as relações com nações da África e do Caribe e para proteger a Commonwealth, associação de 56 países que emergiu do Império Britânico.
Burnham viajará em breve para Antígua e Barbuda para uma reunião de líderes da Commonwealth, onde pretende iniciar um “diálogo estruturado” com os povos afetados pela escravidão. Ele reconheceu que ignorar o problema prejudica o funcionamento da organização e que é preciso reconhecer a “história complexa” do Reino Unido. No entanto, o governo britânico resistirá às exigências por pagamento de reparações financeiras, com Burnham argumentando que os britânicos de hoje não podem ser responsabilizados por erros históricos de épocas passadas.
Proposta de alívio de dívidas e reparações financeiras
Em vez de reparações financeiras, Burnham propõe abordar os desafios atuais enfrentados pela Commonwealth e outras nações em desenvolvimento, como o elevado endividamento. Ele pretende trabalhar com outras nações ricas e investidores para ajudar países vulneráveis a quitar suas dívidas em prazos mais longos e com juros menores. O ex-primeiro-ministro Gordon Brown, defensor do alívio da dívida, participará da reunião para impulsionar essa iniciativa.
A postura do governo britânico contrasta com pedidos feitos ao Rei Charles III durante sua recente viagem pelo Caribe. Em Nassau, nas Bahamas, o monarca reconheceu o “grande sofrimento e as injustiças do passado”, mas não apresentou um pedido de desculpas formal, pois a política oficial do governo é a de não fazê-lo, e o rei fala em nome do governo eleito.
Fortalecimento de relações e reavaliação histórica
As declarações de Burnham ocorrem em um momento em que o Reino Unido busca fortalecer laços com aliados da Commonwealth diante de desafios globais. Uma mudança na postura do governo também pode atender a anseios de eleitores mais jovens e progressistas no Reino Unido, onde ativistas defendem uma reavaliação do legado colonial. Em 2020, manifestantes derrubaram a estátua de Edward Colston, um traficante de escravizados, em Bristol, evidenciando o debate público sobre a glorificação de figuras históricas ligadas à escravidão.
Descendentes de britânicos que lucraram com o tráfico de escravizados já pediram desculpas e ofereceram reparações, incluindo proprietários do jornal The Guardian. Tradicionalmente, políticos britânicos enfatizam o papel do país na proibição do tráfico em 1807 e na abolição da escravidão em 1833. Contudo, Burnham defende que é hora de reconhecer também a participação britânica no comércio de vidas humanas, expressando pesar e arrependimento pela dor e sofrimento causados.



