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Quadro de Tarsila do Amaral é oferecido a banqueiro por R$ 120 milhões em sigilo

22 de outubro de 2026
Quadro de Tarsila do Amaral é oferecido a banqueiro por R$ 120 milhões em sigilo

Destaques

  • •Obra 'O Sol Poente', avaliada em R$ 250 milhões, foi oferecida a Daniel Vorcaro por menos da metade do valor, com exigência de sigilo de cinco anos.
  • •O quadro, que integra um espólio com inventário não concluído, está impedido de ser vendido por ordem judicial.
  • •O caso levanta preocupações sobre a circulação ilegal de obras de arte valiosas e o paradeiro de outras peças importantes de Tarsila do Amaral.

O quadro O Sol Poente, uma das obras mais importantes de Tarsila do Amaral, foi oferecido ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, por R$ 120 milhões em abril de 2024. A oferta, menos da metade dos R$ 250 milhões pelos quais a obra havia sido avaliada pelas autoridades, incluía a condição de sigilo por ao menos cinco anos. A obra, produzida na mesma época de O Abaporu, não pode ser vendida por integrar um espólio cujo inventário ainda não foi concluído, conforme determinação judicial.

A informação consta em mensagens de WhatsApp extraídas do celular do banqueiro pela Polícia Federal e obtidas pela BBC News Brasil. A oferta a Vorcaro ocorreu poucos meses antes de o quadro aparecer na casa de Roberto Setúbal, ex-CEO do Itaú, que desistiu da compra devido aos impedimentos jurídicos. Embora nenhuma das negociações tenha se concretizado, a BBC apurou que O Sol Poente continuou a circular ilegalmente no mercado até pelo menos o fim de 2025.

O que diz a Justiça e o mercado de arte

A circulação ilegal de O Sol Poente é vista como preocupante por analistas do mercado de arte e pesquisadores. A obra contraria uma ordem judicial que impede sua venda e, por ser um ícone da arte brasileira, há um interesse público em seu paradeiro. Obras desse porte, mesmo em coleções privadas, costumam ser emprestadas para exposições, como ocorreu com O Sol Poente em uma retrospectiva no MoMA, em Nova York, em 2018.

Além de O Sol Poente, outros dois quadros centrais de Tarsila do Amaral, O Sono (avaliado em R$ 300 milhões) e Pont Neuf (avaliado em R$ 150 milhões), também estão desaparecidos. A obra O Sol Poente foi oferecida a Vorcaro pela designer de interiores Luciana Gontijo, que atuava como sua interlocutora com artistas e galerias.

O histórico do espólio e as disputas familiares

O Sol Poente foi adquirido décadas atrás pelo marchand Eugene Boghici. Após sua morte em 2015, as obras passaram para sua esposa, Geneviève, e as filhas Sabine e Muriel. Uma crise familiar se instalou quando Sabine, com ajuda de sua namorada Rosa Stanesco, que se passava por cartomante, enganou Geneviève e subtraiu obras de arte, incluindo O Sol Poente. O prejuízo na época foi estimado em R$ 725 milhões.

Sabine morreu em 2023, deixando sua herança para um filho adotivo de Stanesco. Geneviève tenta anular o testamento da filha na Justiça para impedir que as obras ou o dinheiro da venda acabem nas mãos de Stanesco. A outra filha, Muriel, vive na Suíça. Geneviève é apontada como responsável por tentar vender os quadros da família, contrariando a Justiça.

O paradeiro das obras e as investigações

O Sol Poente está desaparecido há mais de dois anos, desde que foi visto na casa de Roberto Setúbal em 2024. As outras obras de Tarsila não são vistas desde agosto de 2022, quando foram recuperadas pela polícia e devolvidas a Geneviève. Em junho de 2025, a Justiça impôs restrições a Geneviève por indícios de má gestão patrimonial e venda de obras sem autorização, além de bloqueio de suas contas.

O advogado Fábio Picanço foi nomeado inventariante independente para administrar o espólio. Em agosto de 2025, diligências em endereços ligados à família não encontraram os quadros nem Geneviève ou Muriel. As autoridades consideram os quadros desaparecidos, e nenhuma obra do espólio pode ser vendida sem autorização judicial até a conclusão do inventário.

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