Paraguai usará energia de Itaipu para data center de US$ 12 bi; Brasil pode perder fornecimento

Destaques
- •Paraguai destinará parte crescente da energia de Itaipu para complexo de data centers de inteligência artificial, com investimento de US$ 12 bilhões.
- •O projeto Iguazú AI City, com apoio de investidores americanos, pode reduzir a oferta de energia barata de Itaipu para o Brasil, que já planeja alternativas.
- •Brasil pode ter que contratar mais energia, mais rápido e talvez mais caro, segundo especialistas, com o aumento do consumo paraguaio.
O Paraguai planeja destinar uma parcela cada vez maior de sua cota na hidrelétrica de Itaipu para o Iguazú AI City, um ambicioso complexo de data centers voltado para inteligência artificial. O projeto, que envolve um investimento de US$ 12 bilhões, equivalente a 24% do PIB paraguaio em 2025, é liderado pela empresa paraguaia Araico, com apoio de investidores americanos como o Founders Fund, de Peter Thiel, e financiamento da agência governamental dos EUA, DFC.
A hidrelétrica de Itaipu, uma joint venture entre Brasil e Paraguai desde 1984, divide a produção de energia meio a meio. No entanto, o Paraguai historicamente vende a maior parte de sua cota para o Brasil, que é um dos maiores consumidores de energia do mundo. Essa venda permitiu ao Paraguai ter uma das energias mais baratas do mundo, atraindo indústrias e, mais recentemente, mineradoras de criptomoedas e data centers.
Complexo de Data Centers em Yguazú
O Iguazú AI City, em construção em Yguazú, próximo à tríplice fronteira, prevê operar um complexo de 1.300 MW de potência a longo prazo. Em sua primeira fase, até abril de 2029, a capacidade será de 286 MW. Para operar, o complexo utilizará energia de Itaipu, que é barata e estável. A capacidade inicial de 286 MW consumirá cerca de 3,4% da energia total produzida por Itaipu em 2025, podendo chegar a 15,6% na capacidade total.
A Araico conta com a parceria da Crusoe, empresa americana especializada em data centers para IA, para instalar e operar os computadores. A parceria foi anunciada durante visita do vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, e definiu que o data center atenderá clientes nos EUA e na América Latina.
Aproximação Geopolítica e Econômica
O projeto também tem um componente geopolítico. O Paraguai aderiu à Pax Silica, iniciativa liderada pelos EUA para aproximar países estratégicos na produção de chips, minerais e infraestrutura de IA. Essa aproximação fortalece os laços entre o Paraguai, sob o governo de Santiago Peña, e os Estados Unidos, utilizando a energia de Itaipu como instrumento político e econômico.
Impacto para o Brasil
O Brasil está atento à possibilidade de perder o excedente de energia de Itaipu, que hoje representa 7% do consumo nacional e é estratégica por sua capacidade de aumentar a geração em horários de pico e por seu custo relativamente baixo (R$ 221 por MWh em 2025, contra R$ 307 pagos pelas distribuidoras brasileiras em média).
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já considera a redução da energia disponível para o Brasil. Especialistas como José Rosenblatt, da consultoria PSR, preveem que o Paraguai pode consumir integralmente sua cota de Itaipu até 2035 ou antes. Luiz Barroso, CEO da PSR, afirma que o Brasil pode ter que contratar mais energia, mais rápido e, possivelmente, mais caro para suprir a demanda.



