Paraguai: Liquidação do Banco Ueno expõe crise e ligações com o presidente
Destaques
- •O Banco Central do Paraguai liquidou o banco Ueno, o maior emissor de cartões de crédito do país, com 3 milhões de clientes.
- •A crise no Ueno, que possibilitou a bancarização de mais de 1 milhão de paraguaios, levanta suspeitas de conflitos de interesse e favorecimento devido a ligações do presidente Santiago Peña com o grupo controlador do banco.
- •O caso paraguaio contrasta com o sucesso do Pix no Brasil como política pública de inclusão financeira segura e acessível.
O Banco Central do Paraguai determinou a liquidação do banco Ueno, o principal emissor de cartões de crédito do país, em meio a uma crise financeira que afeta cerca de 3 milhões de clientes. A instituição possuía aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo fundos do Instituto de Previdência Social. A decisão do Banco Central, que também analisa o impeachment do presidente Santiago Peña, expõe fragilidades no sistema financeiro paraguaio e levanta questionamentos sobre a gestão e a governança.
Vínculos e suspeitas de favorecimento
A crise do Ueno ganha contornos mais graves devido às ligações de Santiago Peña com o grupo controlador do banco. Peña foi acionista do grupo até março de 2025 e nomeou o ex-presidente do Ueno, Carlos Carvallo, para chefiar o Banco Central paraguaio em 2023. Segundo a agência AP, o Banco Central já havia alertado o Ueno em junho sobre empréstimos excessivos a empresas ligadas aos seus proprietários, uma prática restrita por lei. Economistas locais apontam para um tratamento preferencial que permitiu a expansão rápida da instituição, levantando suspeitas de conflitos de interesse e favorecimento.
A liquidação do banco, que apostou na abertura digital de contas, descontos e cashback, impacta diretamente mais de 1 milhão de paraguaios que, segundo a Equifax Paraguay SA, nunca haviam tido uma conta bancária antes. A falta de recursos do Ueno deixa essas pessoas em uma situação de vulnerabilidade financeira.
O que dizem especialistas e próximos passos
Orkun Saka, professor da Universidade de Londres, destacou que o caso Ueno transcende a má gestão, apontando para um sistema onde banco, regulador e presidência estavam intimamente ligados, impedindo a imposição de limites. A Justiça do Paraguai determinou a prisão preventiva de ex-dirigentes e executivos do banco, incluindo Juan Manuel Gustale e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do grupo controlador.
Em termos de recuperação de depósitos, o Banco Central do Paraguai estima que 97% dos clientes teriam direito à recuperação integral via Fundo de Garantia de Depósitos, que cobre até cerca de R$ 203 mil por depositante. No entanto, uma análise da Moody's sugere que apenas 30% do valor total dos depósitos estaria coberto pela garantia, indicando que valores maiores dependem do processo de resolução bancária.
Bancarização digital: o caso brasileiro do Pix
Em contrapartida, o texto destaca o sucesso do Pix no Brasil como um exemplo de política pública de inclusão financeira. Desde seu lançamento, o Pix, juntamente com a digitalização e auxílios emergenciais, impulsionou o número de usuários ativos no Sistema Financeiro Nacional. Entre 2018 e 2023, o número de clientes pessoas físicas saltou de 77,2 milhões para 152 milhões, representando 87,7% da população adulta.
O Pix é descrito como uma infraestrutura pública de acesso aberto, gratuita para usuários, em contraste com sistemas de pagamento de bandeiras de cartão que cobram taxas. O sistema brasileiro foi inclusive citado pelo Banco Mundial como um modelo para expansão do uso de serviços financeiros, ao lado de sistemas como o UPI na Índia. A matéria ressalta a importância de vigilância para que projetos pessoais não se sobreponham a políticas de Estado, como exemplificado pelo contraste entre os escândalos paraguaios e a solidez do Pix.
Matérias originais
- Em tempos de Master e Ueno, o Brasil tem o Pix · olhardigital.com.br



