Papa Leão 14 visita América Latina em meio a polarização política

Destaques
- •Papa Leão 14 inicia viagem de 11 dias pelo Uruguai, Argentina e Peru, marcando seu retorno à América Latina após três anos.
- •A visita ocorre em um cenário de acentuada polarização política no continente, com a Igreja Católica frequentemente se posicionando em debates sociais e contra tendências autoritárias.
- •O pontífice enviou mensagens de unidade e paz ao Brasil, recebidas com agradecimento e renovado convite para visitar o país pelo presidente Lula.
O papa Leão 14 desembarcou no Uruguai nesta sexta-feira (6/11), iniciando sua primeira viagem à América Latina desde que assumiu o pontificado. A visita de 11 dias, que também inclui Argentina e Peru, ocorre em um momento de intensa polarização política no continente, com a Igreja Católica desempenhando um papel cada vez mais ativo nos debates sociais e políticos.
Três anos após deixar o Peru para chefiar um departamento no Vaticano, o pontífice, então conhecido como bispo Robert Prevost, retorna a uma região marcada pela ascensão de políticos de direita e extrema-direita, e por eleições recentes que refletem divisões ideológicas, como a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e a diminuição do poder do partido de Donald Trump nos EUA.
Posicionamentos da Igreja em tempos de polarização
A Igreja Católica, embora oficialmente apartidária, tem visto suas conferências episcopais se posicionarem em questões políticas e sociais. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou cartas sobre a importância do momento político, ressaltando valores como direitos humanos e meio ambiente. Um grupo de 64 bispos divulgou um manifesto crítico a candidatos associados a políticas de liberação de armas.
Na Argentina, setores da Igreja se manifestaram contra políticas de corte de gastos do governo de Javier Milei, alertando para o impacto sobre os mais pobres. Especialistas apontam que a desigualdade social e a busca por justiça e dignidade têm levado parte dos católicos a se engajar em pautas progressistas, embora a instituição seja heterogênea e mantenha posições conservadoras em questões morais.
Raízes históricas e a Teologia da Libertação
A percepção de um catolicismo latino-americano com inclinações progressistas remonta ao período das ditaduras militares, quando a Teologia da Libertação, uma vertente católica voltada para a transformação social e o apoio aos oprimidos, ganhou força. Essa corrente surgiu em um contexto de profunda desigualdade, pobreza e regimes autoritários, buscando no Evangelho a essência da justiça social.
Sociólogos e historiadores ressaltam que, apesar da visibilidade de setores críticos ao autoritarismo e à desigualdade, a Igreja Católica não pode ser classificada como predominantemente de esquerda. A instituição abriga diversas sensibilidades eclesiais e preza pela unidade, mesmo diante de divergências internas. A defesa da vida e a participação no processo de redemocratização são marcos importantes, embora nem todos os religiosos tenham tido a mesma postura diante das ditaduras.
Mensagens e próximos passos
Durante o voo sobre o espaço aéreo brasileiro, o papa Leão 14 enviou uma mensagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desejando unidade e paz ao país. Lula agradeceu o gesto e reiterou o convite para que o pontífice visite o Brasil, prometendo recebê-lo "de braços abertos". O papa também expressou orgulho de ser americano após votar nas eleições dos EUA e mencionou estar se recuperando bem de uma cirurgia para tratar câncer de pulmão.
A visita do papa à América Latina ocorre em um momento de transformações na relação entre religião e política, com a Igreja enfrentando a pluralização religiosa e a ascensão de movimentos que articulam conservadorismo moral e identidade cristã. O pontífice sinalizará como a Igreja Católica enxerga o atual momento do continente, em um cenário onde a extrema-direita é vista como incompatível com os valores católicos.



