Bancos privados cortam projeção de PIB para 2027 e elevam inflação

Destaques
- •Itaú e Bradesco revisam para baixo o crescimento do PIB em 2027 e para cima a projeção de inflação.
- •Juros altos, endividamento e fim de estímulos freiam a economia, enquanto choques fiscais e cambiais elevam preços.
- •Governo Lula busca definir agenda fiscal após retorno de viagem internacional, com pressão por credibilidade.
Os dois maiores bancos privados do Brasil, Itaú e Bradesco, divulgaram relatórios de revisão de cenário que pintam um quadro econômico desafiador para 2027, o primeiro ano do novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Itaú reduziu sua projeção de crescimento do PIB para 2027 de 1,2% para 0,5% e elevou a projeção de inflação de 4,6% para 6,1%. Já o Bradesco cortou a previsão de PIB para 0,4% e aumentou a de IPCA para 5,3%.
O diagnóstico de ambos os bancos aponta que a economia brasileira será freada pela persistência de juros altos, pelo endividamento elevado de famílias e empresas e pelo esgotamento dos estímulos econômicos. Paralelamente, uma série de fatores, como a normalização de tributos e subsídios sobre combustíveis, a desvalorização cambial, a reforma tributária e a redução da jornada de trabalho, devem pressionar a inflação para cima, acima do teto da meta de 4,5%.
Diagnóstico de Juros e Inflação
A diferença nas projeções de inflação entre Itaú e Bradesco reside principalmente nas hipóteses sobre os choques mencionados. O Bradesco considera apenas parte desses fatores e projeta uma queda gradual do petróleo, enquanto o Itaú prevê que a taxa Selic permanecerá em 13,75% durante todo o ano de 2027. O Bradesco, por sua vez, estima quatro cortes de 0,25 ponto percentual no segundo semestre, levando a taxa a 12,75%.
A persistência de juros altos por mais tempo é um dos principais fatores que levam os bancos a revisarem para baixo suas projeções de crescimento do PIB. A taxa básica de juros, a Selic, foi mantida em 13,75% pelo Banco Central em sua última reunião, interrompendo um ciclo de cortes e sinalizando cautela diante do cenário inflacionário.
Ano Difícil: Útil ou Inútil?
A discussão central que emerge dos relatórios é se 2027 será um "ano difícil útil" ou "inútil". Um ano "útil" seria aquele em que o governo aproveita o capital político inicial para realizar o ajuste fiscal necessário, promovendo o reequilíbrio da economia. Com contas públicas mais críveis, o prêmio de risco poderia cair, o câmbio se apreciar e a inflação ceder, permitindo ao Banco Central baixar os juros de forma mais consistente, impulsionando o crescimento na segunda metade do mandato. O precedente citado é o do primeiro governo Lula, em 2003, quando um ajuste fiscal robusto precedeu um forte crescimento em 2004.
Por outro lado, um ano "inútil" seria aquele em que o governo resiste ao ajuste fiscal, resultando em uma economia que sofre sem mudanças estruturais. Isso poderia levar a um período prolongado de juros altos, baixo crescimento e aumento da dívida pública. A autonomia do Banco Central e a nomeação de diretores alinhados com a política monetária são vistas como cruciais para evitar esse cenário.
A Tarefa Fiscal e os Próximos Passos
Os relatórios do Itaú e Bradesco detalham a magnitude do esforço fiscal necessário. O Itaú estima que a estabilização da dívida pública exige um ajuste de cerca de 4% do PIB, defendendo o controle de despesas obrigatórias e a redução de benefícios tributários. O Bradesco aponta que o cumprimento das metas fiscais tem sido obtido com deduções de despesas, o que mina a credibilidade, e que seu cenário-base já inclui os gastos prometidos na campanha.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo discutirá medidas para a agenda fiscal após o retorno do presidente Lula de viagem internacional, prevista para meados de novembro. Durigan destacou a necessidade de manter os compromissos fiscais e sociais, mas ressaltou que "não há fórmula mágica". A expectativa é que o governo apresente propostas que conciliem responsabilidade fiscal com a manutenção de programas sociais, buscando sinalizar credibilidade ao mercado e abrir espaço para a redução dos juros.
Matérias originais
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